É provável que ao ouvires a palavra “skinhead”, a associes de imediato a cabeças rapadas, racistas e violentas.
A verdade, contudo, é que nem sempre foi assim.
O movimento skinhead apareceu nos anos 60, em Inglaterra.
E aqui está a primeira grande surpresa: ao contrário do que se possa pensar, os primeiros skinheads eram, na sua maioria, jovens brancos da classe operária.
Mas a sua cultura nasceu de um encontro. O encontro entre esses jovens e os imigrantes jamaicanos, os chamados rude boys, que partilhavam com eles os mesmos bairros pobres de Londres.
Partilhavam os bairros, partilhavam as dificuldades e, sobretudo, partilhavam a música.
E foi mesmo a música uma das primeiras coisas a unir os skinheads.
Reggae, ska e soul — estilos criados por artistas negros — eram a banda sonora daquela classe operária. Havia até uma editora, a Trojan Records, que praticamente definiu o som do movimento.
Guarda bem este pormenor, porque mais à frente ele vai revelar-se numa ironia enorme.
Desde o seu início até ao final da década de 70, o movimento skinhead era apolítico. Baseava-se nos laços de uma classe trabalhadora em permanente dificuldade, mas unida na sua luta.
As cabeças rapadas e um certo estilo de vestir (as Dr. Martens, os suspensórios, as camisas Ben Sherman e Fred Perry) eram a forma que a subcultura tinha de se reconhecer entre si. Não era moda por moda. Era quase um uniforme de classe: prático, duro, feito para trabalhar.
As pessoas que se identificavam com os skinheads iam essencialmente aos mesmos pubs, ouviam a mesma música e tinham a mesma atitude — sem medo e prontos para o que fosse preciso.
Eram uma juventude rebelde, dura e orgulhosa das suas raízes.
Irreverentes, viam-se como as pessoas esquecidas pela classe média e alta, que viviam em sítios onde eles nunca sequer haveriam de ir.
No entanto, no final dos anos 70 e início dos anos 80, a indústria inglesa atravessava uma crise. As fábricas fechavam e o sentimento de indignação e revolta era cada vez mais acentuado.
Foi por essa altura que alguns grupos de carácter nacionalista e fascista, nomeadamente a National Front, reconheceram naquele grupo características interessantes para a sua causa.
Pessoas com ‘presença de rua’, com um forte sentimento identitário, sem medo de lutar para sobreviver e para se fazerem ouvir.
E foi assim que a frustração de jovens trabalhadores se transformou em violência e na procura desesperada de um sentimento de pertença. De algo que os defendesse. Começou, por esta altura, a infiltração de nazis e outros grupos extremistas na cultura skinhead.
Nestes anos, formaram-se lutas ideológicas internas dentro da subcultura. De um lado, as fações que lutavam contra a imigração e faziam da raça a sua bandeira. Do outro, as que continuavam a ver na luta dos remediados aquilo que devia ser a verdadeira preocupação.
A música voltou a ter o seu papel. Surgiu o estilo Oi!, que pretendia juntar punks, skins e outros jovens desafortunados, tornando mais fortes estes movimentos populares, independentemente da raça.
Mas o exemplo mais bonito foi outro: o movimento 2 Tone. Um renascimento do ska, no final dos anos 70, com bandas deliberadamente mistas — brancos e negros no mesmo palco — como os The Specials, os The Selecter e os Madness.
Numa altura em que a extrema-direita tentava sequestrar o movimento, o 2 Tone foi uma resposta em forma de música: a prova viva de que a raiz daquilo tudo era mestiça.
Surgiram também grupos como os SHARP (Skinheads Against Racial Prejudice), skinheads que lutavam contra o racismo dentro do seu próprio movimento. Curiosamente, este grupo nem sequer nasceu em Inglaterra, mas em Nova Iorque, em 1987, espalhando-se depois pelo resto do mundo.
Os skinheads antirracistas passaram até a recusar o nome “skinhead” aos neonazis. Chamavam-lhes boneheads (cabeças ocas).
Apesar de toda esta resistência, os grupos extremistas conseguiram levar a melhor e arrebanhar muitos jovens skinheads.
Com o passar do tempo, a cultura skin passou a ser cada vez mais identificada com suásticas, violência e intolerância. Uma imagem que chega até aos dias de hoje…
Mas talvez a maior ironia de toda esta história seja esta: muitos skinheads que acabaram a fazer a saudação nazi dançavam ao som de música negra. O ska, o reggae, o soul (tudo criado por artistas negros) foram a banda sonora do movimento desde o primeiro dia.
Os extremistas apropriaram-se de uma cultura cuja alma era, na sua essência, mestiça. Roubaram a casca e deitaram fora exatamente aquilo que a tinha feito nascer.
E, felizmente, nem todos deixaram que isso acontecesse sem luta. Ainda hoje existem os chamados trads, ou skinheads tradicionais, que reivindicam a origem apolítica e operária do movimento e recusam qualquer associação ao ódio.
Por isso, quando ouvimos “skinhead” e pensamos logo em racismo e violência, estamos, sem saber, a dar a vitória final aos extremistas. Estamos a deixar que a minoria que sequestrou o movimento escreva sozinha a sua história.
Se quiseres perceber tudo isto num só filme, vê This Is England, de Shane Meadows. Conta exatamente esta divisão: um miúdo que entra num grupo de skinheads acolhedor e comunitário, e o vê ser rasgado ao meio pela chegada da extrema-direita.
E fica a lição, que vai muito para além dos skinheads: quando um grupo de pessoas se sente esquecido, humilhado e sem lugar no mundo, essa raiva torna-se um terreno fértil.
E há sempre quem esteja disposto a aparecer, oferecer um sentido de pertença, e apontar essa raiva na direção que mais lhe convém.
A necessidade de pertencer a algo é uma das forças mais poderosas que existem.
E, como esta história tão bem nos mostra, também uma das mais perigosas.
Aconselho-vos também alguns vídeos interessantes (aqui, aqui e aqui) e o filme NEDS.
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Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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