#0002 | Por Convite | A gravidade da coisa

Suponhamos a existência de uma espécie não-humana, alienígenas de um planeta distante; descobrem o fogo, inventam a electricidade, desenvolvem o computador e dominam a energia nuclear; suponhamos que essa espécie é tão mais capaz que a humana que toda a linha temporal na qual desenvolvem esta tecnologia cabe num único milénio. Sabias que estes deuses do intelecto podem nunca sair do seu próprio planeta, enquanto um bando de macacos com um milhão de anos de atraso já pôs uma bandeira na Lua?

Isto pode acontecer a uma espécie simplesmente por ter evoluído num planeta grande demais. Parece ficção científica, mas é uma hipótese séria, discutida em astrobiologia, e que talvez ajude a explicar porque é que, numa galáxia com centenas de milhares de milhões de estrelas, não se ouve ninguém.

Pensa na gravidade de um planeta como um poço. Para saíres do poço não podes subir ou escalar; tens de saltar, de te propulsionar para fora, e tens de o fazer com força suficiente para que a gravidade não te impeça. A essa velocidade mínima chama-se velocidade de escape; na Terra são 11.2 quilómetros por segundo, cerca de 40.000 km/h. É esta a velocidade que um foguetão tem de atingir. A parte crucial é que não é um número fixo; depende do tamanho e da massa do planeta. Ou seja, cada metro a mais de planeta é um metro a mais de poço, e com mais força tens de te impulsionar para fora.

O senso comum, coisa que não existe, intui que duplicar a velocidade requer duplicar o combustível, mas é aqui que a intuição nos trai. Um foguetão tem de levar o combustível e esse combustível também pesa; impulsionar esse peso requer mais combustível; e esse combustível também tem de ser levado e acelerado, e assim por diante. As contas foram feitas há mais de um século por Konstantin Tsiolkovsky, cientista russo, e revelam algo desagradável: a necessidade de combustível não cresce linearmente com a velocidade, cresce exponencialmente. Na prática, basta um aumento modesto da velocidade necessária para transformar um foguetão difícil mas possível num foguetão que não se pode construir de todo: um foguetão em que mais de 99% do veículo teria de ser combustível e apenas combustível. Não sobraria massa para o depósito nem mesmo para o motor.

O foguetão Saturno V, ainda hoje uma das máquinas mais poderosas que alguma vez construímos, pesava três mil toneladas ao descolar para carregar apenas quarenta e cinco toneladas até à Lua.

Em 2018, o físico alemão Michael Hippke calculou, no International Journal of Astrobiology, que um foguetão com uma carga do tamanho da do Saturno V, lançado de um exoplaneta rochoso grande como o Kepler-20b, uma das Super Terras, precisaria de qualquer coisa como 400 mil toneladas de combustível. Imagina: um arranha-céus de cem andares, feito só de combustível. Não há material conhecido que o consiga carregar. Nenhum depósito, nenhuma estrutura é suficientemente leve para conter tanto combustível e ao mesmo tempo sobreviver ao lançamento. Isto não é falta de empenho nem falta de tecnologia, é um limite imposto pela densidade energética da química e pela resistência dos materiais que existem.

Abraham Loeb, de Harvard, encontrou um problema parecido nos planetas que orbitam anãs vermelhas, o tipo de estrela mais comum da galáxia. Como as zonas habitáveis ficam próximas da estrela, as velocidades orbitais são altas, e mesmo um planeta rochoso de tamanho normal exigiria velocidades absurdas para se libertar do sistema inteiro, e não apenas do planeta. E a coisa ainda piora.

Em teoria, a propulsão química, baseada no processo da combustão, não é a única via; a propulsão térmica nuclear é muito mais eficiente e poderia reduzir a necessidade de carga excessiva de combustível. No entanto, desenvolver e testar propulsão para lá da combustão exige um programa espacial maduro: satélites, infra-estruturas em órbita, décadas de tentativa e erro… e não se constrói nada disso sem já se ter chegado à órbita. Ou seja: uma espécie numa Super Terra pode chegar à beira do espaço, construir os foguetões, fazer as contas, perceber a mecânica orbital ao pormenor, e nunca ter por onde atravessar.

Podemos aqui estabelecer uma ligação com o Paradoxo de Fermi, a velha pergunta do físico Enrico Fermi sobre porque é que, havendo tantos planetas potencialmente habitáveis, não detectamos sinal de mais ninguém.

As respostas habituais são sombrias: as civilizações são raras, ou duram pouco, ou destroem-se a si próprias. A hipótese do poço gravitacional oferece mais uma alternativa: talvez existam, neste preciso momento, espécies incapazes de enviar seja o que for para fora de casa, apenas porque nasceram num planeta grande demais.

A inteligência é um tema complexo. É fácil supor que uma espécie mais avançada resolveria todas as questões que a rodeiam apenas pela força do intelecto visto que essa é a história que a Humanidade sempre contou sobre si própria. Mas há um exercício de humildade que vale a pena fazer: uma espécie que não abandona o seu planeta não é, necessariamente, menos avançada. Talvez alguém muito mais inteligente do que nós olhe, neste instante, para o mesmo céu e simplesmente não consiga sair de casa.

É aqui que se evidencia o privilégio dos Humanos: coube-nos um lugar favorável no Universo, onde não só temos as condições necessárias para a vida, como também as que permitem que um motor de combustão nos impulsione daqui para fora.

Rúben A. Jesus,

Realizador-argumentista português

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