— Ó mãe, se todas as pessoas se assustam, porque é que só o mano ficou gago? – perguntei eu, certo dia.
A minha mãe não me respondeu de forma clara e taxativa. Era um mistério.
Os sustos, traumas ou exclamações como:
— É muito nervosa e stressada! É esse o motivo. É tudo emocional.
— Isso é manha. Desaparece com o tempo.
— Não é lá muito inteligente…
Representam mitos e crenças associados à gaguez que ainda hoje são disseminados. Ou se espera que passe, ou se ativa o pânico de ter alguém que nos é querido a gaguejar.
Acabei por seguir Terapia da Fala (não pelo meu irmão, juro!) e, felizmente, o mistério desvaneceu-se. Lamento é que quem não entra neste curso continue a desconhecer este mundo.
O que é a gaguez, afinal?
A gaguez é uma perturbação da fluência que impacta o flow do discurso oral espontâneo, podendo envolver:
- prolongamentos (“paaaaaaapel”), bloqueios (“pa—-”) e/ou repetições (“papapapa”) de sons, sílabas ou palavras;
- substituição de palavras por outras (por exemplo, dizer “galão” em vez de “café”);
- produção invulgar de pausas e interjeições;
- dificuldade em iniciar a fala, gerir o seu ritmo e até o timbre e volume vocal.
Em alguns casos, podem surgir comportamentos motores, como piscar os olhos, apertar as mãos, bater com o pé ou tremores à volta dos lábios, entre outros. Estes aumentam a perceção de esforço durante a fala.
Todos estes sinais podem variar em frequência e intensidade ao longo do(s) dia(s) e de pessoa para pessoa. Há dias fluentes e outros bastante disfluentes.
Se o medo da exposição e a vergonha de falar em público são um “mal geral” e, por vezes, te fazem atrapalhar no que dizes (pelo contexto, não por serem uma causa ou perturbação), imagina o impacto que a gaguez tem na tua qualidade de vida quando inicias ou terminar ideias com dificuldade, demoras mais tempo a fazer um pedido num pacato restaurante (e acabas por pedir o que não queres) ou sentes que não consegues controlar a tua fala.
Tudo isto aumenta o receio de seres rejeitado, julgado, gozado ou de que tenham pena de ti. Ainda me lembro do dia em que chegámos a casa e tínhamos a palavra “gago” grafitada no portão. Fiquei para morrer. E nem era comigo: era um recado de um bully para o meu irmão. Não foi fácil…
É duro quando uma característica te é jogada na cara como se fosse a tua identidade.
Mas, se não é um susto ou um infortúnio, o que causa a gaguez, afinal?
Olá, ciência!
A gaguez tem uma forte componente neurológica e genética. Estima-se que a genética esteja envolvida em cerca de 60% dos casos (Dworzynski et.al.2007).
Em famílias com historial de gaguez, esta é mais frequente surgir. Noutros casos, estão envolvidas diferenças na forma como o cérebro planeia e executa os movimentos necessários à fala, entre outros fatores.
Qualquer pessoa que gagueja sabe muito bem o que quer dizer. O que acontece é um desfasamento entre a intenção comunicativa e a produção de fala de forma fluente.
Estima-se que cerca de 1% da população mundial gagueje. O rácio é, por norma, superior nos homens do que nas mulheres. Agora faz as contas em Portugal, usando a eterna franquia dos 10 milhões de habitantes, para perceber, por alto, quantos portugueses gaguejam.
Parecem mais do que aqueles com quem privamos. Talvez pela “invisibilidade”, isto é, optar pelo silêncio para evitar situações de comunicação.
E os contextos sociais exigentes e de grande pressão?
Não provocam gaguez, mas podem funcionar como agravantes. Podem levar crianças, jovens e adultos que já gaguejam a evitarem ainda mais expor-se.
Como e quando pedir ajuda? Tem tratamento?
A gaguez surge normalmente entre os 2 e os 5 anos, uma fase de enorme desenvolvimento linguístico.
Há outliers, crianças que passam por um período de disfluência que pode desvanecer, crianças que apresentam gaguez um pouco mais tarde.
Se estes sinais:
- forem muito frequentes ou estiverem a influenciar a participação da criança em conversas;
- forem acompanhados por dificuldades linguísticas ou existir historial familiar de gaguez;
é importante procurar avaliação em Terapia da Fala.
E sim: consulta com um terapeuta da fala!
Se quando andas mal ou vês mal procuras um especialista, se a comunicação é uma preocupação, o terapeuta da fala é o profissional especializado para avaliar, diagnosticar, intervir e aconselhar a pessoa, a família, cuidadores e outros agentes educativos.
Informação é poder e a intervenção indireta (com pais e professores) pode ser o passo mais importante.
Jovens e adultos com gaguez podem igualmente procurar este apoio e adquirir ferramentas que promovam maior funcionalidade comunicativa e bem-estar.
Cada gaguez é única.
Existem diferentes abordagens terapêuticas, tendo em conta a idade, o contexto, as características individuais e eventuais dificuldades associadas.
Muitas pessoas beneficiam de uma combinação de abordagens baseadas em evidência científica e adaptadas às suas necessidades. Existem grupos terapêuticos e o acompanhamento psicológico pode ser um importante apoio complementar.
Hoje, a tecnologia permite treinar contextos específicos de comunicação, como entrevistas de trabalho ou apresentações.
Não existe uma “cura milagrosa” para a gaguez. Mas existe intervenção. E, particularmente na infância, a intervenção precoce pode trazer benefícios muito positivos.
Vamos partir para a ação?
Há duas perguntas que urgem. Ou, pelo menos, há respostas que quero que guardes e partilhes.
1. O que evitar fazer?
- Evita terminar palavras ou frases da outra pessoa. Escuta. Respeita o tempo.
- Não peças que se acalme ou faça exercícios respiratórios. Pode aumentar a ansiedade. A ansiedade e a respiração não são causas da gaguez.
- Não interrompas, não mudes de assunto, nem exijas que repita ou que “se esforce para falar bem” ou que decore scripts. A gaguez não é uma teimosia.
- Não fales de forma condescendente, como se a pessoa não compreendesse.
2. O que promover?
- Privilegiar o conteúdo em vez da forma como a pessoa comunica;
- No caso das crianças, ser um bom modelo linguístico e de fala. Não é falar super devagar: é abrandar quando necessário, fazer pausas naturais, enfatizar o que importa e evitar sequências de perguntas;
- Estar presente, ser curioso e focado na escuta;
- Criar espaços de partilha e participação sem pressão para falar fluentemente;
- Se for uma criança, jovem ou adulto acompanhado em Terapia da Fala, apoiar as estratégias que está a aprender e a utilizar que suavizam a tensão, modulam o ritmo, a entoação, dessensibilizam e reduzem o evitamento de palavras e situações de comunicação.
O texto de hoje é mais longo do que o habitual.
Espero que não tenhas adormecido nem desistido de aprender o que te pode elevar como parceiro de conversação e ajudar-te a compreender melhor o que é ciência da comunicação.
Dorme sobre este assunto e abre espaço para a expressão e o bem-estar de quem sabe exatamente o que quer dizer, apenas o faz num formato de fluência diferente.
Se tens curiosidade sobre o tema, explora estes links:
Sónia Silva,
Coach de Comunicação e Voz, Formadora e Palestrante

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