Por estes dias terminei de ler as quase mil páginas do livro “Por dentro do Chega: A face oculta da extrema-direita em Portugal“.
Como devem imaginar, para me ter dado a tal empreitada, é porque, de facto, o livro me estava a estimular bastante.
Gostava, por isso, de partilhar com vocês algumas reflexões interessantes, tentando não entrar no campo da opinião política…
O partido das causas
Um dos factos que mais me chamou à atenção foi perceber que, enquanto os apoiantes do partidos tradicionais, como do PS e PSD, tendem a identificar-se com cerca de 70% a 80% das ideias do partido, esse não é o caso no Chega.
Neste partido, existe uma fatia muito expressiva de pessoas que apoia ou até milita, apenas se identificando com uma das suas causas…
Seja os ciganos, a imigração, o aborto, a eutanásia, o marxismo cultural, a identidade de género, existe uma grande fatia de apoiantes que, mesmo apenas se identificando com uma dessas ‘bandeiras’, vota neste partido.
O que é que isto nos diz?
Para mim, isto significa que as pessoas se movem muito por causas que lhes são ‘caras’, apesar de tudo o resto.
Lembro-me sempre da resposta do Ricardo Araújo Pereira, quando confrontado com o facto de votar no PCP: “Para mim a redistribuição da riqueza é muito importante. Não voto no que eles dizem, voto apesar do que eles dizem”
Se pensarmos, os partidos tradicionais, estando muitas vezes entretidos na espuma dos dias, esqueceram as suas bandeiras, e têm frequentemente uma comunicação vaga como “defendemos a descida dos impostos” ou “queremos que todos tenham acesso à saúde”.
Mesmo que as ideias estejam lá, são comunicadas de forma vaga, não permitindo aos eleitores terem a real sensação que aqueles partidos estão lá para resolver problemas reais.
O ser humano é demasiado complexo para ser metido em caixinhas
Ao longo do livro, o autor, Miguel Carvalho, tende muitas vezes a adjetivar os intervenientes, geralmente com base nas ações e ideias dos mesmos.
“Fascista”, “de extrema-direita”, “negacionista”, “salazarista”, entre outros, são alguns adjetivos vastamente utilizados.
No entanto, quando lemos os testemunhos de muitas das pessoas visadas, a maior parte deles feitos especificamente para aquele livro, percebemos que por mais rótulos que tentemos utilizar, as pessoas são demasiado complexas para serem inamovivelmente sectarizadas.
A mesma pessoa que defende que “no tempo de Salazar vivíamos melhor”, pode ser, simultaneamente, um fervoroso adepto da despenalização do aborto.
E agora? Esta pessoa é de direita ou de esquerda?
As pessoas têm opiniões diferentes, em campos distintos, e isso é, na verdade, bastante bom!
Ao contrário do que as redes sociais nos fazem parecer, as pessoas não são duais. Não se posicionam num campo e lá permanecem imutáveis.
Para dificultar ainda mais as contas, as pessoas mudam frequentemente de opinião, consoante vão tendo novas experiências, fazendo com que muitas vezes se contradigam.
Tal significa que o que era a sua opinião hoje, possa não ser a mesma de amanhã.
É exatamente por isso que é tão absurdo achar que os militantes do Chega são fascistas ou “de extrema direita”, embora possam ter algumas posições que de lá se aproximem.
É preciso fazer os eleitores sentir
O Chega é neste momento o 2º partido mais representado na Assembleia da República, totalizando 60 deputados, apesar dos meros 6 anos de existência!
Para percebermos porque é que o Chega teve este crescimento astronómico, é preciso perceber o ser humano primeiro.
Para persuadirmos alguém, temos de fazê-la sentir algo.
E a melhor forma de a fazer sentir algo é… contando-lhe uma história, conseguindo implantar uma imagem verosímil na sua cabeça, mesmo que não seja verdadeira…
Reparem nas seguintes frases:
“os portugueses não podem trabalhar e chegar ao fim do mês sem dinheiro para comer enquanto os ciganos vivem de subsídios e têm mercedes à porta”
“se continuarmos pelo mesmo caminho, a Europa vai em breve acordar mulçumana”
“não aceitamos que sejam lecionados programas de cariz sexual a crianças de 10 anos ou que as mesmas sejam pressionadas a mudar de sexo”
“enquanto milhares de portugueses esperam anos por cirurgias, gastamos milhões para permitir que as mulheres abortem gratuitamente no SNS”
Independentemente das associações entre estas histórias serem verdadeiras ou não, estas frases trazem-nos imagens à cabeça!
Qualquer um de nós consegue imaginar:
- Alguém que se mata a trabalhar e cujo dinheiro não chega até ao fim do mês (situação em que, infelizmente, muitas pessoas vivem);
- Ciganos com mercedes que recebem subsídios (que existem, embora provavelmente muito poucos);
- Bairros totalmente dominados por mulçumanos (que já existem em Berlim e Paris, por exemplo);
- Professores que tentam doutrinar crianças (que também é possível que existam, embora eu desconheça);
- Mulheres a abortar gratuitamente no SNS (que obviamente existem).
É claro, pelo menos para mim, que as associações são desconexas e não causais (por exemplo, entre dinheiro para cirurgias e para abortos) e que a larga maioria das soluções são inexequíveis, mas esse não é o ponto!
O ponto é que as pessoas só se podem identificar com aquilo que as faz sentir algo, e para sentir algo elas precisam de conseguir imaginar!
O jornalismo é cada vez mais necessário, embora cada vez mais negligenciado
Não conheço o autor da obra, Miguel Carvalho, e, apesar de extremamente bem escrito, considero que o livro apresenta algum tendenciosismo (embora não o suficiente para me ter feito abandoná-lo).
No entanto, algo inegável é o trabalho que este homem teve para escrever este calhamaço.
Foram 6 anos de pesquisa e acompanhamento contínuo do partido Chega, em congressos, jantares-comícios, tertúlias, encontros com apoiantes, com militantes, com dissidentes, centenas de telefonemas, milhares de mensagens, cruzamento de fontes, leituras sobre o tema central e temas adjacentes…
Enfim, tudo isto, acredito eu, sem um financiamento oculto por detrás, para além, naturalmente, do salário da Revista Visão e do Diário de Notícias, o qual provavelmente incluía também outras investigações jornalísticas e trabalhos.
A verdade é que para se conhecerem fenómenos destes e de outras naturezas, é, por norma, necessário muito investimento, de tempo e dinheiro, muitas vezes sem qualquer garantia de retorno futuro.
Na era do imediatismo, em que tudo se aprende num reel do TikTok, é cada vez mais necessário e, paradoxalmente, mais difícil, de conseguir fazer-se trabalhos desta envergadura, muitas vezes, como este, de interesse nacional.
Este é um velho problema do capitalismo: nem tudo aquilo que é necessário tem a procura suficiente para ser rentável.
Se tiverem alguma questão sobre o livro, ou já o tiverem lido e quiserem trocar impressões, sou todo ouvidos 😉
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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