169# Os computadores não eram máquinas

Como devem imaginar, escrevo-vos de um computador.

Vocês, muito provavelmente, estão a ler num telemóvel, que também é um computador.

Usamos a palavra sem pensar. 

“Computador”. Uma máquina.

Mas durante mais de 300 anos, se disséssemos “computador” a alguém, essa pessoa olhava à volta à procura de… uma pessoa.

Porque “computador” não era uma coisa, era uma profissão.

Alguém cujo trabalho, o dia inteiro, era fazer contas à mão.

A palavra aparece pela primeira vez por escrito em 1613, num livro inglês, a descrever exatamente isso: “aquele que calcula”. E ficou assim durante séculos.

Quando alguém precisava de números feitos, contratava um computador. De carne e osso.

Hoje quis perceber melhor como é que o mundo funcionava antes de existirem máquinas a fazer isto por nós.

E, já agora, como é que estas máquinas fazem, afinal, o que faziam essas pessoas.

Descobri coisas que não fazia ideia.

Algumas coisas óbvias, como: aquilo a que chamamos computador não pensa realmente.

No fundo, só sabe fazer uma coisa: contas muito simples, com uns e zeros.

Somar, comparar, ligar, desligar.

O truque é que tem lá dentro uns interruptores minúsculos, chamados transístores, contidos em chips, que ligam e desligam milhares de milhões de vezes por segundo.

Um chip de telemóvel moderno tem dezenas de milhares de milhões desses interruptores. Sim, milhares de milhões, num quadrado mais pequeno do que uma unha.

Cada um sozinho é burro. É só um interruptor.

Mas juntos, e a essa velocidade, conseguem calcular a trajetória de um foguetão, mostrar-te um vídeo ou escrever um texto.

Um computador é, portanto, um exército gigantesco a fazer contas simples, muito depressa, todas ao mesmo tempo.

Guarda esta imagem. Porque é exatamente assim que o problema era resolvido antes.

Só que os interruptores… eram pessoas.

Voltemos a 1767.

O grande problema da época era saber onde é que um barco estava, exatamente, no meio do oceano – aquilo a que hoje chamamos coordenadas.

Sem isso, os barcos batem em rochas e afundam-se com gente lá dentro.

A solução passava por umas tabelas astronómicas: sabendo a posição da Lua e das estrelas a uma dada hora, um marinheiro conseguia calcular a sua posição.

Mas alguém tinha de fazer essas tabelas primeiro. E eram milhões de contas.

Um homem chamado Nevil Maskelyne, astrónomo britânico, montou então uma coisa espantosa: uma rede de computadores humanos espalhados pelo país.

Funcionava quase como uma empresa moderna, mas por correio.

Ele partia um cálculo enorme em pedacinhos pequenos e simples, com instruções passo a passo a que chamava “planos de cálculo”.

Enviava cada pedaço pelo correio a uma pessoa diferente, muitas delas a trabalhar de casa.

Cada uma fazia a sua parte, à mão, e devolvia o resultado pelo correio.

Repara no que isto é…

É exatamente o que o nosso telemóvel faz: partir um problema gigante em contas pequenas e distribuí-las por muitas unidades a trabalhar em paralelo.

Só que aqui as “unidades” eram pessoas com pena e tinteiro, e os “cabos” eram os carteiros.

Uma dessas computadoras foi Mary Edwards, que passou 35 anos, entre 1780 e 1815, a calcular tabelas de navegação para a marinha britânica. Sustentou a família a fazer as contas de que dependiam vidas no mar.

Saltemos agora cem anos, para Harvard.

O observatório da universidade tinha um problema de abundância: centenas de milhares de placas de vidro fotografadas do céu noturno. 

Hoje são mais de 550 mil placas, que pesam mais de 165 toneladas de vidro.

Alguém tinha de olhar para cada uma, medir cada estrela, catalogar, comparar.

Não havia IA nesta altura!!

A partir de 1881, o diretor Edward Pickering contratou dezenas de mulheres para esse trabalho de “computação”.

Ganhavam menos do que um homem. 

Muitas nem podiam estudar formalmente na universidade.

Só que aconteceu uma coisa que ninguém esperava.

Algumas delas, no meio das contas, descobriram como funciona o próprio universo.

Henrietta Swan Leavitt encontrou uma regra em certas estrelas que passou a permitir medir distâncias no espaço. 

Foi essa descoberta que, mais tarde, deixou Edwin Hubble provar que o universo está a expandir-se.

Uma “calculadora” mal paga deu-nos a régua com que medimos o cosmos!

Chega a Segunda Guerra Mundial e o trabalho fica sombrio, mas urgente.

Para disparar um canhão com pontaria, o exército precisava de tabelas de tiro: para cada ângulo, cada vento, cada temperatura, onde é que a bala cai.

Cada uma dessas trajetórias, feita à mão, levava 30 a 40 horas a uma pessoa sentada a uma secretária com uma calculadora mecânica.

O exército americano tinha salas cheias de mulheres a fazer isto, dia após dia.

Chamavam-lhes, oficialmente, o “corpo de computadores”.

E foi daqui que nasceu a máquina.

Em 1946, a universidade da Pensilvânia apresentou o ENIAC, o primeiro computador eletrónico de uso geral.

Aquela mesma trajetória que levava entre 30 a 40 horas a um humano, o ENIAC fazia-a em cerca de 30 segundos.

E adivinhem quem o programou…

As seis mulheres escolhidas para dar as primeiras ordens ao ENIAC foram tiradas precisamente do corpo de computadores humanos. 

Obviamente, já sabiam melhor do que ninguém como se parte um problema em passos.

A máquina que ia substituir as computadoras humanas foi “ensinada a funcionar” por computadoras humanas.

Acho curiosa esta viagem toda…

Durante 300 anos, calcular foi um trabalho humano. Discreto, mal pago, muitas vezes feito por mulheres a quem a sociedade não deixava fazer mais nada.

Foram estas pessoas que fizeram as tabelas que salvaram barcos, que mediram o universo e que puseram gente no espaço.

E a máquina que hoje trazemos no bolso não faz, no fundo, nada de diferente do que elas faziam – fazem-no “apenas” infinitamente mais rápido.

Onde antes havia uma sala de pessoas com pena e tinteiro, há agora milhares de milhões de interruptores num bocado de silício.

A palavra “computador” não mudou de significado. Mudámos só quem faz o trabalho.

E, se calhar, a próxima vez que carregares num botão e a resposta aparecer num instante, vale a pena lembrar que, durante quase toda a história, esse instante era o trabalho de uma vida inteira de alguém.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco 

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