161# Uma guerra civil invisível

Desde há algum tempo para cá que um país tem estado na minha mente, nem vos sei bem dizer porquê.

A verdade é que tenho uma grande vontade de o visitar, por razões históricas, beleza natural e cultura.

O país de que vos falo é o Myanmar.

Alguns conhecê-lo-ão por Birmânia, mas já lá vamos.

O Myanmar é um país no sudoeste asiático, multiétnico, com uma larga maioria de religião budista. A sua capital é Naypyidaw, embora Yangon, a antiga capital, continue a ser a cidade mais conhecida.

Com uma história altamente rica e volátil, nas últimas décadas marcada pela instabilidade permanente, o país está oficialmente em guerra civil há 5 anos.

A nível étnico, o grupo maioritário é o Bamar, mas há muitos grupos étnicos, como Shan, Karen, Rakhine, Kachin, Chin, Mon e outros. 

Essa diversidade é uma das riquezas do país, mas também está ligada a tensões históricas e conflitos armados em várias regiões.

Para percebermos como o Myanmar chegou ao ponto em que está hoje, temos de recuar um pouco na história.

Durante mais de um século, o país foi uma colónia britânica. Foi precisamente aí que nasceu o nome Birmânia (Burma, em inglês).

Os britânicos decidiram chamar ao país o nome do grupo étnico maioritário, os Bamar (ou Birmaneses). 

O problema é que esta escolha ignorou completamente as dezenas de outras etnias que já ali viviam.

Em 1989, anos após a independência e já sob uma ditadura militar, o regime decidiu mudar oficialmente o nome para Myanmar.

A justificação foi a de que “Myanmar” seria um nome mais inclusivo para todas as etnias, e não apenas para os Bamar. 

No entanto, para muitos governos e ativistas na altura, a mudança foi vista apenas como uma tentativa da junta militar de apagar o passado e legitimar o seu poder.

Mas a figura que mais marcou a história moderna do país é, sem dúvida, Aung San Suu Kyi.

Ela é filha de Aung San, o herói nacional que negociou a independência do país antes de ser assassinado. 

Suu Kyi tornou-se o grande símbolo mundial da resistência pacífica contra a ditadura.

Passou um total de 15 anos em prisão domiciliária e chegou a receber o Prémio Nobel da Paz em 1991.

Em 2015, as coisas pareciam estar finalmente a mudar. 

O partido de Suu Kyi venceu as eleições e ela assumiu a liderança do governo civil. O país começou a abrir-se ao mundo e ao turismo.

Contudo, esta democracia era uma ilusão. 

A Constituição, feita pelos militares, garantia que o exército mantinha o controlo dos ministérios mais importantes e uma quota fixa no parlamento. Suu Kyi tinha de governar em constante compromisso com os generais.

Foi durante este período que o mundo assistiu à crise dos Rohingya, uma minoria muçulmana no estado de Rakhine. O exército de Myanmar levou a cabo uma campanha de repressão brutal contra este grupo, considerada pela ONU como um genocídio.

Surpreendentemente, Aung San Suu Kyi defendeu as ações do exército no Tribunal Internacional de Justiça. Essa postura destruiu a sua reputação de ícone dos direitos humanos no Ocidente, mas manteve a sua enorme popularidade dentro do Myanmar.

Mesmo assim, os militares sentiram-se ameaçados pelo seu poder. Em fevereiro de 2021, após mais uma vitória esmagadora do partido de Suu Kyi nas eleições, o exército deu um golpe de Estado.

Este golpe de Estado foi acidentalmente gravado por uma influencer, em direto.

Suu Kyi foi novamente detida, enfrentando uma série de acusações políticas. Os protestos pacíficos da população foram esmagados com violência extrema.

Foi a gota de água para o povo, que decidiu pegar em armas. O país mergulhou numa violenta guerra civil que dura até hoje.

Esta guerra atual é incrivelmente complexa porque o Myanmar é um mosaico de etnias. O território está praticamente dividido por zonas de influência.

De forma simples, o conflito divide-se em três grandes fações:

  1. A Junta Militar, apoiada pela China, liderada pelo general Min Aung Hlaing, que controla a capital Naypyidaw, os grandes centros urbanos e a maior parte do poder de fogo (incluindo a força aérea).
  2. As Forças de Defesa Popular (PDF), que são milícias formadas por cidadãos comuns (muitos deles jovens urbanos) criadas após o golpe de 2021. Estão ligadas ao governo civil que foi deposto.
  3. As Organizações Armadas Étnicas (EAOs). Estes grupos já lutavam pela sua autonomia e controlo de territórios muito antes do golpe de 2021. Têm exércitos experientes e controlam as zonas fronteiriças do país.

Atualmente, muitas destas guerrilhas étnicas uniram-se às PDF para combater o inimigo comum: a junta militar. 

E a verdade é que os militares têm sofrido pesadas derrotas e perdido imenso território ao longo das fronteiras com a China, a Índia e a Tailândia.

Apesar da tragédia humanitária, o Myanmar continua a ser um país fascinante.

Tem locais mágicos como Bagan, uma planície com milhares de templos budistas antigos que rivaliza com Angkor Wat, ou o Lago Inle, onde os pescadores locais têm uma técnica única de remar com as pernas.

Após pesquisar e descobrir tudo isto, deixa-me triste que os conflitos na Ucrânia, no Irão e em Gaza tenham um destaque mediático incomparavelmente maior que a guerra civil no Myanmar Birmânia, tal como no Sudão, por exemplo.

Não me interpretem mal, não estou a diminuir o sofrimento das pessoas desses três países, mas uma vida sudanesa ou do Myanmar vale tanto como uma vida ucraniana ou iraniana.

Deixo-vos um vídeo muito interessante que assisti antes de começar esta newsletter e este artigo de alguém que visitou o país no ano passado.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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