160# Quanto custa a conveniência e a aparente segurança?

Nunca vivemos numa época tão fácil e segura.

Fácil, no sentido em que temos tudo o que procuramos com meia dúzia de cliques. Objetos? Amazon. Comida? Uber Eats. Relacionamentos? Tinder… Vocês percebem a ideia.

Segura, no sentido em que se compararmos a criminalidade da há 100 anos atrás em qualquer país do mundo com a atual, a probabilidade de ter diminuído a pico é muitíssimo elevada.

Esta segurança deve-se a duas coisas, essencialmente. 

Primeiro, as pessoas são mais ricas hoje, graças ao crescimento económico, o que faz com que tenham menos necessidades de cometer crimes. 

Em segundo, os meios de prevenção, investigação e captura são muito mais avançados, o que também dissuade os potenciais preversores.

A maior parte das pessoas diria que o facto de vivermos com maior comodidade e segurança é algo extremamente positivo.

Para mim, pelo menos, é.

Neste momento, seguimos um caminho onde parece que estes dois pilares são o objetivo central da humanidade, e todos os esforços são feitos para que os consigamos alcançar no seu expoente máximo.

Comodidade, facilidade e conveniência são algo a que cada vez mais no habituámos, sendo hoje em dia até assustador pensar em delas abdicarmos.

É por isso que aceitamos Termos & Condições de todas as apps sem nunca as termos lido, ignoramos os cookies dos sites, facultamos o nosso documento de identidade para praticamente qualquer coisa que nos seja pedido, fazemos scans faciais para verificarmos a nossa identidade e gravamos as passwords no browser, ou até em gestores de passwords.

No que toca à segurança, paulatinamente vamos aceitando reduzir a nossa privacidade para que nada de mal nos aconteça. É por isso que na China, nos EUA e no Reino Unido já existem câmaras em todo lado e ninguém se revolta. Pelo contrário!

Na verdade, se não vamos cometer crimes, nem fazer nada de secreto, por que raio nos havemos de preocupar? Antes viver num sítio em que sabemos que nada de mal nos vai acontecer, certo?

A ideia é muito atrativa.

Principalmente porque nós não sentimos as suas repercussões.

Cada vez que somos filmados por uma câmara, achamos sempre que ninguém está a olhar para nós, visto que somos insignificantes e inofensivos.

Cada vez que consentimos o acesso aos nossos dados, acreditamos que não serão utilizados para nada mais do que aquilo que é estritamente necessário. Afinal de contas, qual o pior cenário que pode acontecer?

No entanto, e não querendo ser opinativo, é importante pensarmos além daquilo que é mais visível…

Será que numa sociedade onde os governos e as grandes empresas possuem todos os nossos dados e têm a possibilidade de rastrear tudo aquilo que fazemos, quem põe em causa esses governos e essas grandes empresas estará a salvo?

Imaginemos alguém que investiga as teias de corrupção de um Governo. A partir do momento em que esse mesmo governo tem acesso a todo o historial de onde essa pessoa esteve e do que fez, será assim tão difícil silenciá-la?

Será que o silenciamento dessa pessoa vale a pena, em nome de toda a segurança e comodidade que o sistema montado nos pode trazer?

No que toca aos nossos dados, que hoje estão espalhados por todo o lado e ninguém sabe bem por onde, será seguro que instituições tenham acesso a todos os nossos dados, desde a hora a que acordamos, àquilo que almoçamos, às transferências que fazemos, aos objetos que compramos, ou até à velocidade a que conduzimos?

Hoje em dia, quando precisamos de um crédito à habitação, por exemplo, temos de providenciar à instituição em causa documentos, como extratos de conta e recibos de vencimentos. No entanto, no caminho em que vamos, dentro de pouco tempo deixaremos de precisar de o fazer. 

Brevemente, as instituições já terão modelos baseados em todos os nossos dados (muitas já têm) que lhes permitirão apurar, mais precisamente do que alguma vez no passado, qual é a probabilidade de incumprimento.

Mais uma vez, será este o caminho que queremos seguir? Este caminho de entrega total e amorfa à tecnologia de conveniência e de segurança?

A meu ver, não me parece que, a longo prazo, consigamos fugir deste caminho, mesmo que na UE existam mecanismos de proteção, como o RGPD.

Principalmente, porque a grande maioria das pessoas não sente os efeitos negativos desta submissão total ao poder das grandes instituições.

O sistema societal que tem vindo a ser desenvolvido é baseado nisso mesmo: na criação de uma experiência de vida o mais integrada, simples e confortável possível, mesmo que com uma concentração de poder altamente assustadora.

E a grande questão é que, mesmo que um país, ou vários, decidam não seguir este caminho, e dar um enfoque maior à privacidade das suas pessoas, em última análise vão sempre “ficar para trás” naquilo que é hoje amplamente aceite como qualidade de vida.

Essa é uma das razões pelas quais que, tanto os EUA como a China, não põe a segurança de dados em primeiro lugar quando estão a desenvolver os seus sistemas de IA – porque sabem que se um deles o fizer, o outro ganhará vantagem.

É também por isso que a UE tantas vezes fica para trás na corrida tecnológica. Exatamente porque nela há regras para proteger os dados dos cidadãos. Mas até quando?

E vocês, já tinham pensado nisto antes?

Gostava de ouvir opiniões 😉

Por hoje é tudo.

Um abraço e até quarta,

Francisco

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