159# Coisas que não sabes sobre a China

Boa noite!

Como muitos de vocês saberão, pelo menos aqueles que leram a newsletter da semana passada ou que me seguem nas redes sociais, hoje escrevo-vos a partir da China.

Desde que aqui estou, a maior lição que aprendi foi que tentar reduzir um povo/país a meras generalizações, principalmente sobre aquilo que eles são, não faz mesmo qualquer sentido.

Isto é especialmente verdade num país com 1,4 mil milhões de pessoas.

Nesta semana e meia, já conheci as pessoas mais simpáticas e as mais carrancudas, os sítios mais limpos e os sítios mais sujos, comidas maravilhosas e comidas francamente repugnantes.

Assim, hoje pretendo dar-vos um lamiré daquilo que se passa na China e o que podemos encontrar no dia-a-dia.

Como disse, generalizar seria errar e, por isso, aquilo que vos direi é aquilo que não é incomum ver, aquilo que é efetivamente comum e aquilo que são algumas idiossincrasias das pessoas e do país.

Idiossincrasias e factos sobre a China

  • Reféns da tecnologia: nada me dá mais calafrios do que pensar em perder o telemóvel ou ficar sem internet aqui. 99% das compras neste país são pagas através de uma de duas aplicações Alipay e WeChat (desde que aqui estou nunca usei dinheiro físico). É raríssimo ver dinheiro e pagar em cartão não existe de todo. Para além disso, tudo o resto que um turista ocidental precisa – ver mapas, marcar hotéis, reservar transportes – é tudo feito online.
  • Não existem bilhetes de comboio/avião: depois de as passagens serem compradas online, o controlo da entrada é sempre feito através de passaporte, ou cartão de cidadão, no caso de cidadãos nacionais, acompanhado de reconhecimento facial. Este método é usado também em parques e funciona muito bem. Faz todo o sentido, se o bilhete está associado a um documento de identificação, porquê precisar de mostrar os dois quando se pode mostrar apenas um?
  • Eletrificação dos meios de transporte: uma grande parte dos carros, assim como a larga maioria das motas, na China são elétricos, pelo menos nas seis cidades que já visitei. As estradas das grandes cidades são bastante silenciosas, mesmo em hora de ponta, É intrigantemente raro ver carros a combustão e bombas de gasolina, sendo que as que há são mais direcionadas para os veículos pesados. O meio de transporte mais comum para a maioria dos chineses é a scooter elétrica, onde não é incomum ver mais do que os dois passageiros para a qual ela foi desenhada.
  • Os encontrões são normais: isto não significa que andemos na rua e alguém nos vá dar um encontrão propositadamente. No entanto, aqueles encontrões acidentais numa fila ou num transporte a que no Ocidente estamos habituados a pedir desculpa quando acontecem, não devemos esperar um pedido de desculpa na China. Sendo eles 1,4 mil milhões de pessoas, é muito comum haver multidões e filas. Eu acho que, por essa razão, eles não encaram um encontrão como algo a que deva ser sujeito um pedido de desculpa, mas antes como algo inevitável e cujo melhor a fazer é seguir caminho como se nada tivesse acontecido. É algo estranho ao início, porque em Portugal estamos habituados a pedir desculpa sempre que embatemos acidentalmente em alguém, mas depois habituamo-nos.
  • Ausência de açúcar: quando era mais novo, a minha mãe dizia-me que não havia chineses gordos. Mãe, estavas errada, eles existem. No entanto, a verdade é que são claramente uma pequena minoria. E algo que eu reparei, e que se não for a razão principal para haver poucos chineses gordos, é certamente uma delas, é o facto de os doces aqui terem muito menos açúcar do que os que nós temos no Ocidente. Normalmente, quando vemos aqui algum produto à venda que nos parece doce, ou até mesmo uma bomba calórica, provamos e apercebemo-nos de que é muito menos doce do que inicialmente parecia. Para além disso, aqui não existe de todo a cultura da sobremesa.
  • Segurança não é um tema: nunca estive num país tão seguro (eu disse-te, mãe!). Aqui há câmaras em todo o lado. Literalmente em todo o lado. Nem os estrangeiros escapam. É impressionante. Roubar é algo que nem sequer lhes passa pela cabeça. Podemos deixar os nossos pertences seja onde for e é garantido que, quando lá voltarmos, eles estarão lá, à nossa espera, intocados.
  • Honestidade e integridade: no geral, segundo a minha experiência, os chineses, principalmente os comerciantes, são super honestos. Já me aconteceu, várias vezes, preparar-me para pagar, sem querer, mais do que era suposto e eles retificarem de imediato, assim que se apercebem, para um valor mais baixo. Para além disso, aqui não existe ‘preço para turista’ – aquilo que vais pagar, enquanto estrangeiro, é exatamente aquilo que seria pago por uma pessoa local.
  • O inglês é extremamente raro e parco: são muito poucos os chineses que falam inglês, mesmo nas cidades maiores. O que, se pensarmos, é normalíssimo. É um alfabeto totalmente diferente e 99% da população não precisa de saber inglês para viver a sua vida quotidiana. O turismo estrangeiro é residual, pelo que se percebe que eles não sentem essa necessidade. No entanto, eles normalmente fazem um esforço para nos entenderem, e quase sempre a coisa vai lá com mímica ou com o tradutor do telefone. As sinalizações mais relevantes nas cidades, como placas nos transportes ou em monumentos, têm quase sempre a tradução para inglês.
  • Escarrar / cuspir: antes de vir, já tinha lido que os chineses cospem muito e sem qualquer pudor. É verdade, embora seja algo principalmente das gerações mais velhas, pois nota-se que muitos jovens o consideram repugnante. E utilizo a palavra “escarrar”, porque, normalmente, antes de cuspirem, eles parecem tentar tirar tudo aquilo que têm dentro de si, com barulhos que enojam qualquer cidadão ocidental.
  • Meterem-se de cócoras: ainda não percebi exatamente porquê, mas não é de todo incomum ver chineses de cócoras, seja a fumar, à espera de um transporte, dentro do próprio transporte ou simplesmente parados na rua.
  • Camisola dobrada a mostrar a barriga: por causa do calor que se faz sentir na China durante o verão, não é incomum ver homens, e até mulheres (embora muito menos), com a camisola para cima e a barriga de fora. Isto é algo que fazem para combater o calor, ninguém acha estranho e até tem um nome: “Beijing Bikini”.
  • Casas de banho públicas gratuitas: seja nas estações de metro, nas ruas de uma cidade ou num parque nacional, é norma existirem casas de banho públicas gratuitas. Pela minha experiência, é possível encontrá-las bastante limpas, sujas, mas normalmente estão algures no meio, a um nível aceitável.
  • Casas de banho turcas: aqui é bastante comum as retretes terem a chamada “sanita de cócoras”, em vez de as sanitas ‘normais’, a que estamos habituados, mesmo em restaurantes e hotéis mais modernos e limpos. Suponho que na altura que o país começou a evoluir os seus sistemas sanitários este sistema fosse mais barato. Talvez seja essa uma das razões pelas quais muitos chineses gostam de se pôr de cócoras na rua.

Muito mais haveria a dizer, desde a comida à infraestrutura, mas o texto já vai longo…

Antes de terminar, e para que não restem dúvidas, se tivesse que classificar de 0 a 10 o quanto estou a gostar da China, a minha resposta seria 12 😉

Se tiveres alguma curiosidade ou comentário, podes (e deves) sempre responder-me por email ou mandar mensagem nas redes. Tenho todo o prazer em responder!

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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