Boa noite!
Antes de mais, caro leitor, depois de duas semanas sem mandar a newsletter semanal a que te acostumei, quero pedir-te desculpa por te ter falhado.
Como diz uma amiga minha, a vida acontece, e nem sempre é possível fazer tudo como queríamos.
Mas fica aqui a promessa de que tudo farei para que não volte a acontecer.
Vamos ao tema de hoje…
Escrevo-vos do 3.º andar de um beliche num bullet train, algures no meio da China, a 350 km/h.
Pois é, se não houver imprevistos, por este país vaguearei durante as próximas três semanas.
“- Vais três semanas sozinho para a China?!”
“Homem valente”, “eu não tinha coragem”, “grande maluco”, foram algumas das respostas que obtive nos últimos dias antes de vir para cá.
Cada vez que vou sozinho para longe, oiço este tipo de comentários…
E deixem-me partilhar com vocês um segredo…
Em TODAS as viagens que faço sozinho há sempre pelo menos um momento em que dou por mim a pensar, num misto entre piada e pena: “Se eles soubessem como é aqui, muito provavelmente, perceberiam que os malucos são eles por não virem”.
Normalmente, acabo sempre por conhecer outros solo travelers e juntos rimos do facto de haver pessoas que não viajam sozinhas por medo.
Deixem-me desconstruir a ideia…
Há uns meses, fui a Barcelona dar um workshop chamado As histórias que contamos a nós próprios (The stories we tell ourselves, no original).
A premissa desse workshop é a seguinte: antes de tomarmos quaisquer decisões na vida, sejam pequenas ou grandes, nós, inconscientemente, contamos histórias a nós próprios sobre cada cenário que imaginamos possível e projetamos o que aconteceria em todos eles.
Depois, consoante aquilo que pensamos que vai acontecer em cada um deles, escolhemos aquele que achamos melhor.
Por exemplo, imaginem que estão a olhar para o menu de um restaurante para escolherem o que vão jantar.
Quando olham para o prato de camarão, pensam que talvez seja melhor não pedir marisco, porque pode dar-vos a volta à barriga, e imaginam, então, o desconforto que isso vos provocaria.
Depois, olham para a feijoada, e pensam que talvez seja melhor não a pedir, porque podem ficar enjoados e não dormir como deve ser. Passa-vos então pela cabeça o desconforto que seria, e decidem não optar pela feijoada.
O processo segue da mesma forma para todos os pratos, até que decidem pedir aquele que vos faz mais sentido de acordo com aquilo que acham que vai acontecer por o pedirem.
Só que há três grandes problemas com este processo na tomada de decisão.
O primeiro é que, obviamente, nós não temos conhecimento suficiente para antecipar tudo aquilo que vai acontecer. Por exemplo, numa viagem à China, por mais que façamos a nossa pesquisa prévia, há imensas coisas que só descobrimos quando vamos.
O segundo é que nós somos completamente enviesados, ou seja, o conhecimento que possuímos é, na larga maioria dos casos, parcial e erróneo, baseado apenas naquilo que vemos, ouvimos ou lemos. Tal significa que muitas coisas que acreditamos serem verdade não o são.
Em terceiro, existem demasiados fatores externos, isto é, que não controlamos. Por isso, por mais que planeemos tudo ao detalhe, vai sempre haver imprevistos.
Já perceberam onde quero chegar, certo?
Caso não viagem sozinhos porque já experimentaram e não gostaram, ou porque não veem necessidade, então tudo certo e podem abandonar a leitura aqui.
Mas se gostavam de viajar sozinhos e a razão pela qual não o fazem é o medo ou o receio…
Então, meus amigos, temos mesmo de conversar.
Em primeiro lugar, importa dizer que, antes de o fazer pela primeira vez, eu também tinha receio.
Ir para um “mundo novo”, que desconhecemos, é naturalmente incerto e um pouco assustador.
No entanto, se fizermos alguma pesquisa, percebemos que a larga maioria dos países do mundo são tranquilos para viajar sozinho e que, na maior parte desses, é, na verdade, muito fácil.
(Uma nota importante: quando falo em “pesquisa”, refiro-me a ler/ouvir testemunhos de pessoas que foram, não a ler notícias escritas por jornalistas que nunca foram ao sítio em causa.)
O problema, segundo a minha experiência, é que começamos logo a imaginar complicações que — guess what — não existem.
Por exemplo, antes de vir para a China, eu estava com receio de chegar ao aeroporto de Xangai e ter grandes dificuldades em apanhar o metro, fosse por estar tudo em chinês, por não ter internet para comprar o bilhete, ou por outra razão qualquer.
Como é óbvio, este receio era completamente parvo, porque, desse lá por onde desse, demorando mais ou menos tempo, eu iria sempre conseguir apanhar o metro.
Viajar, principalmente sozinho, tem o poder de desconstruir ideias preconcebidas que temos.
Em todos os países existem pessoas, cidadãs desses mesmos países, que precisam de ter uma vida funcional. Por isso, as coisas vão estar montadas para que tal aconteça.
Isso significa que, com mais ou menos dificuldades, vamos conseguir fazer aquilo que for necessário, em qualquer sítio, para chegarmos onde queremos.
Como já estou a imaginar algumas das vossas objeções, deixo-vos algumas das razões que mais oiço vindas de pessoas que acham que eu “sou maluco” por viajar sozinho para longe.
“Ah, mas eles não falam inglês nesse país.”
Acreditem em mim, o ser humano é extraordinário e arranja sempre maneiras de se fazer entender.
Na Tailândia, conheci uma rapariga brasileira que não falava uma palavra de inglês. Na Roménia, uma rapariga colombiana que, também ela, não falava uma única palavra de inglês. Ambas tinham uma coisa em comum: estavam a adorar as suas viagens!
Hoje em dia, com toda a tecnologia deste mundo, o Google Tradutor está a dois segundos de distância – até na China!
“Ah, mas eu tenho medo de me sentir sozinho/a.”
Apesar de nunca me ter acontecido, esta é sempre uma possibilidade.
No entanto, para uma primeira experiência, eu marcaria apenas uma ou, no máximo, duas semanas.
Assim, caso tal aconteça, num ápice estás de volta a casa e pelo menos experimentaste!
De novo, acho difícil isso acontecer, principalmente se escolheres um destino onde haja turismo, porque, de uma forma ou de outra, acabas sempre por conhecer malta.
“Ah, mas e se fico doente ou tenho um acidente?”
Tal como na opção anterior, esta é uma possibilidade real.
Apesar disso, as probabilidades de acontecer algo que não passe com uns comprimidos, descanso ou uma visita a um centro de saúde são francamente baixas.
Caso aconteça, há uma frase que ouvi muito na minha infância e que tenho sempre comigo: “Uma pessoa com dinheiro no bolso raramente fica enrascada”.
Claro que tal não significa que se tiveres um acidente num local remoto, a coisa não possa ficar feia.
Ainda assim, ter dinheiro para um hospital privado e/ou para pagar a alguém para nos levar de imediato ao hospital mais próximo ajuda bastante.
Para além disso, há formas de nos precavermos de muitos acidentes evitáveis, como usar capacete numa mota, por exemplo.
Escusado será dizer que, se deixarmos de fazer tudo com medo de ter um acidente, deixamos de sair de casa…
“Ah, mas eu sou tímido.”
A não ser que gostes de ser tímido, tens uma excelente oportunidade para dares um passo no sentido de deixares de o ser!
Uma última dica, embora bastante óbvia, é: se nunca viajaste sozinho e tens receio de o fazer, não comeces por um país onde é difícil fazê-lo.
Tal como, se nunca bebeste álcool, deves começar por beber uma cerveja, e não dez.
Assim, e não querendo fazer desta newsletter um artigo de autoajuda, espero ter contribuído para tirar preconceitos da tua cabeça.
Agora, está na hora de marcares essa viagem na qual já tanto pensaste e que nunca marcaste, por alguma das razões acima 😉
Como incentivo, deixo-te ainda umas fotos dos meus primeiros 3 dias na China, em Xangai e Changsha…





Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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