Imagina caminhar pelo centro histórico de uma capital europeia e, de repente, a rua acabar.
Não porque há obras…
Não porque o trânsito está cortado…
Mas porque há bidões, sacos de areia, arame farpado e uma zona controlada pelas Nações Unidas!
Essa cidade é Nicósia, a capital do Chipre.
À primeira vista, Nicósia pode parecer apenas mais uma cidade mediterrânica, mas há um detalhe que a torna diferente de quase todas as capitais europeias…
A cidade está dividida ao meio!
A linha que separa as duas partes é conhecida como Linha Verde.
Esta linha atravessa não só Nicósia, mas praticamente toda a ilha do Chipre, de leste a oeste.
Tem cerca de 180 quilómetros e é vigiada pela missão de paz das Nações Unidas no Chipre.
Em algumas zonas rurais, a zona-tampão chega a ter vários quilómetros de largura.
Mas no centro antigo de Nicósia, em certos pontos, tem apenas alguns metros.
Ou seja, há ruas onde a divisão política da ilha não é uma abstração distante. Está mesmo ali, no fim do passeio.
Para perceber como se chegou aqui, é preciso recuar algumas décadas…
O Chipre tornou-se independente do Reino Unido em 1960.
A ilha tinha, e continua a ter, duas comunidades principais: a comunidade greco-cipriota, maioritária, e a comunidade turco-cipriota.
Durante os anos seguintes à independência, as tensões entre estas comunidades aumentaram.
Em 1964, as Nações Unidas enviaram uma missão de paz para a ilha, numa tentativa de evitar novos confrontos.
Mas o momento decisivo aconteceu em 1974.
Nesse ano, houve um golpe de Estado no país, apoiado por setores ligados à junta militar grega, que defendiam a união da ilha com a Grécia.
Poucos dias depois, a Turquia interveio militarmente no norte de Chipre.
O resultado foi, claro, a divisão da ilha!
A parte sul ficou sob controlo da República de Chipre, reconhecida internacionalmente e, desde 2004, parte da União Europeia.
A parte norte passou a ser administrada pela autoproclamada República Turca do Norte de Chipre, reconhecida única e exclusivamente pela Turquia.
Desde então, o Chipre permanece dividido na prática. E Nicósia tornou-se o símbolo mais visível dessa divisão.
Durante muitos anos, atravessar de um lado para o outro era impossível ou muito limitado.
Hoje existem pontos de passagem, incluindo no centro de Nicósia.
Um dos mais conhecidos é o da Rua Ledra, uma rua comercial no coração da cidade antiga.
Ali, podemos caminhar, passar por um controlo, mostrar identificação e continuar para o outro lado.
Em poucos minutos, muda de administração, de bandeiras, de sinais, e até de moeda usada com mais frequência.
Mas o facto de poder passar-se de um lado para o outro não significa que a divisão tenha desaparecido.
A Linha Verde continua a existir e é bem visível.
Há edifícios abandonados, zonas interditas, postos de vigilância e ruas interrompidas.
Em certos locais, a cidade parece ter continuado a viver normalmente. Noutros, parece ter ficado suspensa desde os anos 70.
O caso torna-se ainda mais curioso porque, como referi, o Chipre entrou na União Europeia em 2004.
Em teoria, toda a ilha faz parte da União Europeia.
Na prática, a legislação europeia está suspensa nas zonas onde o governo da República de Chipre não exerce controlo efetivo.
Isto cria uma situação, no mínimo, incomum: uma ilha que pertence à União Europeia, mas onde a aplicação das regras europeias não é igual em todo o território.
Esta zona-tampão é o símbolo de uma divisão política e um problema diplomático ainda por resolver.
Ao longo dos anos, houve várias tentativas de reunificação da ilha. Nenhuma conseguiu resolver definitivamente a questão.
A cidade continua a funcionar, as pessoas atravessam de um lado para o outro, há comércio, turismo e contactos entre comunidades, mas a divisão permanece.
Nicósia é muitas vezes descrita, tal como fiz no título desta newsletter, como a última capital dividida da Europa.
E talvez seja isso que a torna tão interessante.
É uma cidade que continua a viver, com relativa naturalidade, apesar de ter uma fronteira implementada no meio por força das armas.
Se quiserem aprofundar, vejam este vídeo e leiam este artigo.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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