168# Factos sobre um dos animais mais temidos

Eu tinha muito medo de cobras.

Ainda tenho, mas hoje já muito mais controlado.

Talvez por isso, fico completamente fascinado com os vídeos daquelas pessoas (profissionais) que brincam com cobras venenosas, lhes pegam, metem à volta do pescoço, e coisas do género…

Essas pessoas, certamente, investiram muitas horas das suas vidas a estudar as cobras, perceber quais são os gatilhos delas, o que as faz atacar, quais são venenosas e quais não são, e muitas outras coisas acerca destes répteis sobre as quais eu sou um completo ignorante.

Hoje dei por mim a pensar o quão pouco sei sobre este animal.

Sei que escama, que ataca se sentir em perigo, que algumas espécies têm veneno e outras não… Mas não faço ideia como funciona o seu processo de reprodução, por exemplo!

Para perceber, fui pesquisar um pouco sobre serpentes e descobri coisas bastante interessantes…

Atualmente mais de 4 mil espécies de serpentes reconhecidas, embora este número não seja definitivo.

Continuam a ser descobertas novas espécies e outras são separadas ou agrupadas à medida que os cientistas estudam o seu ADN e percebem melhor as relações entre elas. 

Reptile Database, uma das principais bases taxonómicas de répteis, apresentava recentemente 4 249 espécies de serpentes.

Mas em que país existem mais?

Se estivermos a falar de diversidade, ou seja, do número de espécies diferentes e não da quantidade total de animais, México e Brasil aparecem no topo.

Uma pesquisa atual na Reptile Database identifica 456 espécies distribuídas pelo México e 452 pelo Brasil. O Brasil tem até a ilhas das cobras, à qual é proíbido aceder.

Isto significa que o país com mais espécies de cobras não é a Austrália, como eu provavelmente teria respondido inicialmente.

A Austrália tem muitas espécies venenosas e algumas das mais perigosas do mundo, mas não é o país com maior diversidade.

No extremo oposto, existem locais onde não há populações naturais de cobras terrestres.

É o caso da Irlanda, da Islândia, da Gronelândia, da Nova Zelândia e, naturalmente, da Antártida.

No caso da Irlanda, Saint Patricks não expulsou cobra nenhuma.

A explicação está sobretudo na última Idade do Gelo!

Quando o clima voltou a aquecer, a Irlanda já se encontrava separada do continente e as cobras não conseguiram lá chegar naturalmente.

A Nova Zelândia também não tem cobras terrestres nativas nem populações selvagens estabelecidas.

No entanto, cobras-marinhas podem aparecer ocasionalmente nas suas águas, transportadas pelas correntes ou por tempestades. 

Não vivem nem se reproduzem normalmente no país porque a água é demasiado fria.

Outra coisa, no mínimo curiosa, que descobri é que as cobras nunca fecham os olhos.

Não porque estejam sempre atentas… mas porque não têm pálpebras!

Em vez disso, possuem uma escama transparente que cobre e protege cada olho. Essa espécie de “lente” também é substituída quando a cobra muda de pele.

Também não têm ouvidos externos, como nós.

Não vemos orelhas nem qualquer abertura auditiva na cabeça, mas isso não significa que sejam surdas.

As cobras possuem um ouvido interno e conseguem sentir vibrações através dos ossos da mandíbula, que estão em contacto com o solo.

Por isso, uma cobra pode não ouvir a nossa voz da mesma forma que nós, mas consegue perceber muito bem que algo pesado se está a aproximar.

A língua bifurcada também tem uma função muito mais sofisticada do que eu imaginava.

Quando a cobra coloca a língua de fora, está a recolher partículas químicas presentes no ar e no chão.

Depois, encosta a língua a um órgão sensorial localizado no céu da boca, chamado órgão de Jacobson.

É desta forma que consegue detetar alimentos, predadores, outras cobras e possíveis parceiros para acasalar.

Algumas espécies têm ainda órgãos capazes de detetar o calor.

Isso permite-lhes localizar animais de sangue quente mesmo no escuro.

É quase como se conseguissem formar uma imagem térmica do que está à sua volta.

Também descobri que não existe uma única maneira de uma cobra se deslocar.

Os cientistas distinguem várias formas de locomoção, como a ondulação lateral, o movimento em linha reta, o movimento em concertina e aquele movimento de lado, normalmente associado às cobras do deserto.

Há até as chamadas “cobras voadoras”.

Na realidade, claro que elas não voam.

Lançam-se das árvores e planam, controlando a queda através dos movimentos do corpo.

Como são animais ectotérmicos – seres vivos que dependem de fontes de calor externas -, a temperatura do seu corpo depende muito do ambiente.

É por isso que as vemos a apanhar sol sobre pedras ou estradas. Não estão simplesmente a descansar.

Estão a aquecer o corpo para conseguirem deslocar-se, caçar e digerir os alimentos.

E quanto à reprodução, como acontece? Esta era uma das minhas maiores questões.

Então, o macho possui dois órgãos reprodutores chamados hemipénis, que ficam recolhidos na base da cauda. 

Durante o acasalamento, o macho e a fêmea enrolam parcialmente as caudas e alinham as cloacas, que são as aberturas utilizadas para a reprodução e para a eliminação de resíduos.

O macho introduz apenas um dos hemipénis na cloaca da fêmea e liberta o esperma. 

A fecundação ocorre depois no interior do aparelho reprodutor da fêmea.

Há um pormenor especialmente curioso: algumas fêmeas conseguem armazenar o esperma durante meses e, em certos casos, durante vários anos, utilizando-o apenas quando as condições são adequadas para a reprodução. 

Por isso, uma cobra pode pôr ovos férteis muito tempo depois de ter estado com um macho.

 Mas, atenção, nem todas as cobras põem ovos.

Algumas espécies são ovíparas e depositam os ovos num local protegido.

Outras dão à luz crias vivas.

E há ainda espécies em que os ovos permanecem dentro do corpo da mãe até estarem praticamente prontos para eclodir.

Na maioria dos casos, as crias ficam entregues a si próprias logo após o nascimento, mas também aqui há exceções.

A cobra-real, por exemplo, é uma das poucas cobras que constrói um verdadeiro ninho.

A fêmea junta folhas e ramos, deposita os ovos e permanece nas proximidades para os proteger. Pode colocar entre 21 e 40 ovos.

Durante esse período, praticamente não se alimenta.

Mais estranho ainda é o facto de algumas cobras conseguirem reproduzir-se sem macho, num processo chamado partenogénese.

O óvulo desenvolve-se sem ter sido fertilizado e dá origem a uma cria. É raro, mas já foi observado em várias espécies de cobras e noutros vertebrados.

Depois há a famosa mudança de pele.

A cobra não muda de pele apenas porque está a crescer.

A muda também ajuda a renovar a camada exterior, a reparar pequenos danos e a eliminar alguns parasitas.

Antes da muda, forma-se uma camada de líquido entre a pele antiga e a nova.

É por isso que os olhos podem ficar temporariamente esbranquiçados ou azulados.

Quando as condições são adequadas e o animal está saudável, a pele antiga pode sair praticamente inteira, incluindo as escamas transparentes que cobrem os olhos.

Outro mito muito repetido, que eu já tinha ouvido, é o de que as cobras deslocam a mandíbula para engolir animais maiores do que a cabeça…

Ora, isso não acontece.

A mandíbula inferior é formada por duas partes ligadas por tecido elástico.

Além disso, os ossos que unem a mandíbula ao crânio são extremamente móveis.

Isto permite que as duas metades se afastem e avancem alternadamente sobre a presa, sem que a cobra tenha de “desmontar” a boca.

Como podem imaginar, as cobras também não mastigam.

Agarram a presa com dentes geralmente curvados para trás e engolem-na inteira.

Depois de uma refeição grande, podem passar dias ou semanas quase imóveis, concentrando grande parte da sua energia na digestão.

Algumas espécies conseguem ficar meses sem comer.

O corpo comprido também obrigou os órgãos internos a adaptarem-se.

Os órgãos encontram-se dispostos de forma alongada e não lado a lado como acontece no nosso corpo.

Na maioria das cobras, um dos pulmões está muito reduzido ou desapareceu quase completamente, permitindo que o outro ocupe uma parte maior do corpo (sim, as cobras têm pulmões).

Quanto àquelas espécies que eu pensava que matavam as presas por asfixia, afinal não é bem assim.

A pressão exercida pelo corpo da cobra interrompe a circulação do sangue, impedindo que este chegue normalmente ao coração e ao cérebro das presas.

Esta perde rapidamente a consciência devido à paragem da circulação, e não apenas por ficar sem ar.

Quanto ao veneno, a realidade é mais complexa do que dividir todas as cobras entre “venenosas” e “não venenosas”.

Existem cobras com veneno na parte da frente da boca, como as víboras e as mambas.

Outras têm dentes especializados mais atrás e produzem veneno que é eficaz contra as suas presas, mas que normalmente representa pouco perigo para os seres humanos.

Por isso, uma cobra poder produzir veneno não significa necessariamente que consiga provocar uma situação grave numa pessoa.

O veneno não existe, obviamente, para caçar seres humanos.

Evoluiu sobretudo para imobilizar presas e facilitar a alimentação, embora também possa servir como defesa.

Dependendo da espécie, pode afetar o sistema nervoso, o sangue, os músculos, o coração ou os tecidos que rodeiam a mordedura.

Mesmo assim, as mordeduras de cobra constituem um enorme problema de saúde pública.

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 5,4 milhões de pessoas sejam mordidas todos os anos.

Entre 1,8 e 2,7 milhões sofrem envenenamento, e estima-se que morram anualmente entre 81 mil e 138 mil pessoas. 

Não surpreendentemente, a maioria dos casos graves ocorre em comunidades rurais de África, da Ásia e da América Latina, onde o acesso rápido a antivenenos é mais difícil.

Curiosamente, algumas substâncias presentes no veneno deram origem a medicamentos.

captopril, utilizado no tratamento da hipertensão e da insuficiência cardíaca, foi desenvolvido a partir do estudo do veneno da jararaca.

Finalmente, há a questão do tamanho.

pitão-reticulada é considerada a cobra mais comprida do mundo, ultrapassando regularmente os seis metros (a boa notícia é que é originária do sudoeste asiático!).

Já a anaconda-verde é regularmente considerada a mais pesada, embora seja uma “meia-verdade”.

cobra-real é, por sua vez, a cobra venenosa mais comprida.

Pode ultrapassar os cinco metros e consegue levantar cerca de um metro da parte da frente do corpo quando assume a sua postura defensiva (vejam isto!).

Apesar de tudo isto, a maioria das cobras prefere fugir a enfrentar uma pessoa.

O meu pai sempre me disse: “qualquer animal mais pequeno que tu tem mais medo de ti do que tu dele”. E acho que é verdade!

Muitas das posições que interpretamos como agressivas são, na realidade, comportamentos defensivos de um animal que se sente encurralado.

As cobras também têm um papel importante nos ecossistemas.

Alimentam-se de ratos, insetos e outros animais, ajudando a controlar populações que poderiam destruir culturas ou transmitir doenças.

Ao mesmo tempo, servem de alimento a aves, mamíferos e outros répteis.

Resumindo e concluíndo, são animais que ouvem através da mandíbula, cheiram com a língua, mudam também a “pele” dos olhos, conseguem passar meses sem comer e, em alguns casos, produzir calor para proteger os próprios ovos.

Mesmo não tendo perdido o medo, considero-as, agora, ainda mais fascinantes!

Há alguma curiosidade sobre cobras que queiras partilhar?

Deixo-vos 3 artigos que li no processo de pesquisa (aquiaqui e aqui) e ainda este vídeo.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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