167# Hitler e Estaline teriam de comer muita sopa

Esta tarde acabei de ler o livro “China em 10 palavras“, de Yu Hua, que havia começado a ler ainda antes de embarcar na minha aventura para a China.

Este livro, que tem uma grande componente autobiográfica, foi escrita por alguém cuja infância foi passada em plena Revolução Cultural.

Não sei quanto a vocês, mas eu tinha uma vaga ideia do que tinha sido a revolução cultural e, depois de ler este livro, considero que sei bastante melhor no que esta fase histórica consistiu.

Sabia também que Mao Zedong, mais conhecido por Mao Tse Tung, matara mais pessoas que Adolf Hitler e Joseph Estaline juntos.

No entanto, depois de ler esta obra, apercebi-me que, tal como diz o título desta newsletter, para chegar aos calcanhares de Mao, a todos os níveis, ambos os ditadores teriam de comer muita sopa…

O nível de melindre e controlo da população a que Mao conseguiu chegar é absolutamente insano.

Vamos então por partes, para dar contexto…

Antes da Revolução Cultural, é preciso recuar até 1949.

Foi o ano em que Mao e o Partido Comunista venceram a guerra civil e proclamaram a República Popular da China, que dura até aos dias de hoje. 

Depois de um século de humilhações, invasões e fome, o país inteiro acreditou que finalmente ia começar qualquer coisa nova.

E começou. Só que não foi o que esperavam.

O primeiro grande desastre não foi a Revolução Cultural. Foi antes.

Chamou-se Grande Salto em Frente (tradução livre de Great Leap Forward).

A ideia, lançada em 1958, era transformar a China de país agrário em potência industrial em poucos anos. 

Os camponeses foram organizados em comunas gigantescas e postos a produzir aço em fornos improvisados no quintal (os famosos fornos de fundo de quintal, onde se derretiam panelas, ferramentas e até utensílios agrícolas para cumprir metas de produção).

O aço que saía dali era, na maior parte, inútil.

Pior: enquanto se fundiam panelas, ninguém andava nos campos. 

E os dirigentes locais, com medo de reportar más notícias, inflacionavam os números das colheitas. 

O Estado cobrava impostos sobre colheitas que existiam no papel, mas não no chão.

O resultado foi a maior fome da história da humanidade.

Os historiadores divergem nos números. 

As estimativas de mortes por fome entre 1958 e 1962 vão dos 15 milhões, na contabilidade oficial mais conservadora, até aos 45 milhões, no cálculo do historiador Frank Dikötter a partir de arquivos provinciais. 

A maioria das estimativas académicas situa-se entre os 30 e os 45 milhões.

Trinta a quarenta e cinco milhões de pessoas!

Por causa de uma política económica.

Este desastre é fundamental para perceber o que vem a seguir, e por uma razão que raramente se explica.

O Grande Salto foi tão catastrófico que Mao teve de recuar. 

Em 1959 largou a chefia do Estado e deixou a gestão do dia-a-dia a figuras mais pragmáticas, como Liu Shaoqi e Deng Xiaoping, que se puseram a reparar os estragos com métodos menos ideológicos e mais realistas.

E funcionou. A economia começou a recuperar (se bem que era difícil não o fazer…).

Só que, para Mao, essa recuperação tinha um problema. Estava a ser feita à custa de abandonar tudo aquilo em que ele acreditava. 

Via os seus antigos camaradas a afastarem-se da via revolucionária, a readmitir incentivos, mercados, hierarquias. 

Via, na sua leitura, a China a escorregar de volta para o capitalismo, tal como acusava a União Soviética de ter feito depois de Estaline.

A Revolução Cultural nasce, em boa parte, desta ferida.

Foi a maneira de Mao voltar ao centro do poder e, ao mesmo tempo, purificar o país daquilo a que chamava os elementos burgueses infiltrados no próprio Partido.

Lançou-a oficialmente em 1966. Chamou-se, por extenso, a Grande Revolução Cultural Proletária, e durou dez anos, até à morte dele em 1976.

E aqui é que a coisa se torna difícil de explicar a quem não viveu aquilo, porque não foi uma guerra nem um golpe. 

Foi outra coisa, que Yu Hua tão bem explica no seu livro.

Foi o Estado a mandar os jovens virarem-se contra os pais, os professores, os chefes e, por vezes, uns contra os outros.

O instrumento foram os Guardas Vermelhos: milhões de estudantes, muitos deles adolescentes, organizados para atacar tudo o que representasse o velho mundo.

A palavra de ordem era destruir os Quatro Velhos: velhas ideias, velha cultura, velhos costumes, velhos hábitos.

Na prática, isto quis dizer templos destruídos, livros queimados, obras de arte partidas à martelada, cemitérios profanados…

Até animais. Gatos, que foram associados à vida burguesa e ao ócio, foram mortos em campanhas.

E os professores. Sobretudo os professores.

Ser instruído passou a ser um crime. 

Intelectuais e cientistas foram humilhados em público nas chamadas sessões de luta, obrigados a ajoelhar durante horas com cartazes ao pescoço a confessar crimes inventados, muitas vezes espancados à frente dos próprios alunos. 

As universidades fecharam durante anos. Uma geração inteira ficou sem escola.

Dou-vos um detalhe deliciosamente absurdo, que ilustra bem o que era viver ali: havia uma dança obrigatória, a dança da lealdade, que se executava perante o retrato de Mao. 

As pessoas dançavam-na em fábricas, em escolas, em lojas, antes de comprar num balcão, antes de comer. Movimentos rígidos, mãos ao coração e depois erguidas ao retrato.

Recusar-se era impensável e fazê-la mal era perigoso.

E depois havia o Livro Vermelho (little red book). Ainda muito vendido hoje em dia em mercados de rua na China (eu próprio trouxe alguns para oferecer).

Uma pequena coletânea de citações de Mao, encadernada em plástico vermelho, da qual se imprimiram mais de mil milhões de exemplares. 

Andava-se com ele na mão. Citava-se de cor. Muitos consultavam o Livro Vermelho antes de tomar qualquer decisão, do trabalho à doença, como se fosse um oráculo. 

Médicos publicaram artigos a atribuir curas ao pensamento de Mao.

Para aqueles que estão neste momento incrédulos…

Isto não é caricatura! 

Mao não controlava só o que as pessoas faziam. 

Controlava o que elas sentiam, e para muitas, ao fim de algum tempo, deixou de haver diferença entre as duas coisas.

O caos chegou a um ponto em que os próprios Guardas Vermelhos se fragmentaram em facções rivais, que passaram a combater-se umas às outras, por vezes com armas pesadas roubadas ao exército. 

Em cidades como Chongqing houve verdadeiras batalhas urbanas entre grupos que juravam, todos eles, a mesma lealdade absoluta a Mao.*

A dada altura, Mao teve de usar o próprio exército para conter os jovens que ele mesmo tinha soltado.

E fez uma coisa notável: mandou milhões desses jovens urbanos para o campo, para serem reeducados pelos camponeses. 

Foi o movimento Subir às Montanhas, Descer aos Campos. 

Cerca de 17 milhões de jovens foram deslocados das cidades para aldeias remotas, muitos deles perdendo anos de vida e educação no meio do nada. Alguns nunca mais voltaram.

Quanto ao número de mortos da Revolução Cultural em si, as estimativas variam entre cerca de meio milhão e dois milhões, dependendo do que se conta e de quem conta.

Estas mortes incluíam fuzilamentos. Literalmente, fuzilamentos. E fuzilamentos arbitrários.

Não haviam tribunais a sério – como podem imaginar -, e bastava que alguém fosse denunciado como tendo feito algo “burguês” ou “contra a classe operária” para que o seu fim fosse ser alvejado por um esquadrão de soldados.

Tudo isto acabou, na prática, quando Mao morreu, em setembro de 1976.

Semanas depois, a viúva dele, Jiang Qing, e mais três dirigentes – o chamado Bando dos Quatro – foram presos e responsabilizados publicamente pelos excessos do período. 

Basicamente, foi a forma que o regime encontrou de fechar o capítulo sem pôr em causa o próprio Mao.

E essa última peça, talvez seja a mais estranha para nós.

Ao contrário de Hitler ou Estaline, Mao nunca caiu. 

O sucessor que emergiu, Deng Xiaoping (este que tinha sido afastado na

Revolução Cultural) desmontou quase toda a economia maoista e abriu a China ao mercado. 

Mas fê-lo mantendo Mao no pedestal, com a fórmula célebre de que Mao teria sido setenta por cento correto e trinta por cento errado.

Ainda hoje o retrato dele está pendurado na Praça de Tiananmen e ele é visto e tratado como um herói. 

*Nota: Em Portugal, na altura do 25 de abril e um pouco antes, também haviam vários grupos maoistas que acreditavam defender verdadeiramente as ideias de Mao, tais como a UDP e o MRPP, onde, por exemplo, militou o ex-primeiro-ministro e ex-presidente da comissão europeia José Manuel Durão Barroso.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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