163# Comprar rins? Neste país é legal

Imagina que precisas urgentemente de um rim novo para sobreviver…

Estás em Portugal e entras na lista de espera. E vais aguardando… se tiveres sorte, meses, provavelmente, anos.

Agora imagina que apanhas um avião para Teerão.

Provavelmente, resolves o problema em poucas semanas!

Porquê?

Porque o Irão é o único país no mundo onde é legal comprar e vender rins.

Não é mercado negro nem uma zona cinzenta. 

É um sistema montado, regulado e supervisionado pelo próprio Estado.

Quando descobri isto, confesso, fiquei perplexo.

Como é possível que vender partes do próprio corpo, um dos assuntos mais tabu do planeta, seja legal num único país do mundo?

E, mais ainda, sendo esse país uma teocracia islâmica totalitária?

Vamos por partes.

Tudo começou em 1988.

Nessa altura, o Irão tinha um problema sério: milhares de pessoas com doença renal terminal e pouquíssimos rins disponíveis.

A doação de órgãos após a morte praticamente não existia no país.

Perante isto, o governo tomou a decisão radical de criar um mercado regulado em que qualquer iraniano poderia doar um rim a outro iraniano com doença renal terminal, em troca de compensação financeira.

O sistema funciona mais ou menos da seguinte forma: quem precisa de um rim inscreve-se numa associação sem fins lucrativos, chamada Associação para o Apoio a Doentes Renais.

É esta ONG que faz a avaliação médica inicial e serve de intermediária entre doadores e receptores.

Quem quer doar um rim passa por uma bateria de exames, cumpre uma série de requisitos, e recebe uma compensação.

O pagamento ronda os 1.200 dólares pagos pelo Estado, mais um valor adicional pago pelo receptor ou por uma organização sem fins lucrativos que faz de intermediária.

E o mais espantoso é que… funcionou.

Em pouco mais de uma década, o Irão conseguiu praticamente eliminar a lista de espera para transplantes renais, dando à maioria dos candidatos acesso ao transplante.

Uma coisa que, tanto quanto pude aferir, nenhum outro país do mundo consegue fazer.

Pelo mundo fora, dezenas de milhares de pessoas morrem todos os anos à espera de um rim que nunca chega.

Em Portugal, a realidade não é muito diferente. Há sempre mais gente na fila do que rins disponíveis. Infelizmente, tenho inclusive conhecimento da situação de perto.

Mas, claro, como alguns de vocês devem estar a questionar-se, a história no Irão não é toda cor-de-rosa. Longe disso.

Segundo o Niskanen Center, um think tank americano, 76% das pessoas que doam um rim no Irão vivem em situação de pobreza, e usam o dinheiro para pagar dívidas.

Problema agravado, ainda, pelo facto de o país prender pessoas que não conseguem pagar o que devem.

E é aqui que o assunto começa a tornar-se moralmente incómodo…

O sistema funciona porque há sempre alguém suficientemente desesperado para vender uma parte do seu corpo por 1.200 dólares.

Não estamos, portanto, a falar de doação altruísta. 

Estamos, na maior parte das vezes, a falar de uma transação em que quem tem dinheiro compra órgãos a quem não tem.

Há ainda outro problema, este mais prático. 

Dadores em situação de pobreza tendem a ter piores condições de saúde, o que aumenta o risco de complicações para quem recebe o rim.

Apesar disto tudo, alguns economistas, incluindo o Nobel da Economia Alvin Roth, defendem que os EUA deviam adotar um sistema semelhante ao iraniano.

O argumento é simples: o mercado negro de órgãos existe na mesma em países como a Índia, o Paquistão ou as Filipinas.

Mais vale legalizá-lo e regulá-lo, salvando milhares de vidas no processo.

Do outro lado, há quem defenda que o sistema iraniano é essencialmente exploração dos mais pobres.

Que transformar o corpo humano em mercadoria é uma linha vermelha que não devemos ultrapassar, aconteça o que acontecer.

E o mais curioso de tudo isto é que o próprio Islão, oficialmente, é contra a comercialização de órgãos!

A tradição islâmica considera a doação de órgãos como um ato de caridade contínua (sadaqah jariyah). Um presente que se dá com a intenção de salvar vidas. Nunca uma transação comercial.

E, ainda assim, é uma república islâmica que tem o único mercado legal de rins do mundo.

Como diz o meu avô: “há coisas do diabo”.

E vocês, o que acham?

Faz sentido legalizar a venda de rins para salvar vidas? Ou é uma linha que nunca devíamos atravessar, custe o que custar?

Deixo-vos este artigo para aprofundarem o tema e este vídeo que discute se se deve ou não montar um sistema idêntico ao do Irão em prática nos EUA.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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