164# Economia do gosto

Imagina que abres agora o ChatGPT.

Pedes-lhe para escrever sobre qualquer tema que eu já tenha abordado aqui.

As viúvas dos tigres, os rins do Irão, a profissão mais antiga do mundo…

Ele escreve-te um texto bem estruturado, com factos corretos, em 15 segundos.

Então, porque raio é que ainda abres este email às quartas?

Tenho andado a pensar nisto.

A verdade é que a informação que te dou aqui, tu conseguias encontrá-la sozinho. Toda ela.

O que eu faço, na prática, é outra coisa. 

Leio inúmeros artigos, tenho imensas conversas e vejo vários vídeos todas as semanas, e, no fim, escolho um só tema…

Aquele que acho que vale o meu e o teu tempo.

Para isso, é preciso saber escolher.

E há cada vez mais gente a dizer que, num mundo onde a IA sabe fazer tudo, ter bom gosto e escolher bem vai ser a competência mais bem paga que existe.

Vamos por partes…

Durante décadas, quem sabia fazer uma coisa bem feita, como escrever, desenhar, programar ou compor, ganhava dinheiro por isso. 

O saber-fazer era escasso.

Agora não é. 

A IA generativa faz mil versões de tudo em segundos. Um logótipo, um artigo, uma canção ou outra coisa qualquer.

O que ela tem dificuldade em fazer é escolher qual dessas mil versões realmente presta.

Se achares que estou a exagerar, olha para o Rick Rubin, um produtor de música.

Produziu discos de Johnny Cash, Beastie Boys, Jay-Z, Red Hot Chili Peppers…

Enfim, uma das pessoas mais influentes da história da música.

Já admitiu, várias vezes, que não sabe tocar nenhum instrumento nem mexer numa mesa de mistura. 

Nas palavras dele: “não tenho qualquer capacidade técnica, e não sei nada de música.”

O que tem é o dom de escolher o que é bom e o que é mau antes de qualquer outra pessoa na sala.

A Anna Wintour nunca desenhou um vestido na vida. 

Passou décadas como editora chefe da revista Vogue a decidir quais os designers que mereciam ser vistos.

Voltando a mim, e a esta newsletter.

Sempre que acabo de escrever, releio e carrego em “programar envio”, sei perfeitamente que a informação, sozinha, não vale nada. 

Está toda disponível, de graça, a uns prompts de distância.

O que eu espero que valha é a escolha (claro que a escrita também conta!). Ler cem coisas chatas para te dar uma interessante.

Se isto for verdade (e espero que seja), então a pergunta que deves andar a fazer-te não é se sabes usar a IA. 

Isso, daqui a um ano, toda a gente o saberá.

A pergunta é: quando a máquina te der cem opções, sabes qual delas escolher? Sabes explicar porquê?

Quem souber fazê-lo, parece-me, vai valer mais do que quem só sabe carregar em “gerar”.

Deixo-vos este artigo e este vídeo para aprofundarem o tema. 

Por hoje é tudo!

Até quarta,

Francisco

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