162# A fronteira que passa pelo meio de uma cidade

Imagina caminhar pelo centro histórico de uma capital europeia e, de repente, a rua acabar.

Não porque há obras…

Não porque o trânsito está cortado…

Mas porque há bidões, sacos de areia, arame farpado e uma zona controlada pelas Nações Unidas!

Essa cidade é Nicósia, a capital do Chipre.

À primeira vista, Nicósia pode parecer apenas mais uma cidade mediterrânica, mas há um detalhe que a torna diferente de quase todas as capitais europeias…

A cidade está dividida ao meio!

A linha que separa as duas partes é conhecida como Linha Verde.

Esta linha atravessa não só Nicósia, mas praticamente toda a ilha do Chipre, de leste a oeste.

Tem cerca de 180 quilómetros e é vigiada pela missão de paz das Nações Unidas no Chipre.

Em algumas zonas rurais, a zona-tampão chega a ter vários quilómetros de largura.

Mas no centro antigo de Nicósia, em certos pontos, tem apenas alguns metros.

Ou seja, há ruas onde a divisão política da ilha não é uma abstração distante. Está mesmo ali, no fim do passeio.

Para perceber como se chegou aqui, é preciso recuar algumas décadas…

O Chipre tornou-se independente do Reino Unido em 1960.

A ilha tinha, e continua a ter, duas comunidades principais: a comunidade greco-cipriota, maioritária, e a comunidade turco-cipriota.

Durante os anos seguintes à independência, as tensões entre estas comunidades aumentaram.

Em 1964, as Nações Unidas enviaram uma missão de paz para a ilha, numa tentativa de evitar novos confrontos.

Mas o momento decisivo aconteceu em 1974.

Nesse ano, houve um golpe de Estado no país, apoiado por setores ligados à junta militar grega, que defendiam a união da ilha com a Grécia.

Poucos dias depois, a Turquia interveio militarmente no norte de Chipre.

O resultado foi, claro, a divisão da ilha!

A parte sul ficou sob controlo da República de Chipre, reconhecida internacionalmente e, desde 2004, parte da União Europeia.

A parte norte passou a ser administrada pela autoproclamada República Turca do Norte de Chipre, reconhecida única e exclusivamente pela Turquia.

Desde então, o Chipre permanece dividido na prática. E Nicósia tornou-se o símbolo mais visível dessa divisão.

Durante muitos anos, atravessar de um lado para o outro era impossível ou muito limitado.

Hoje existem pontos de passagem, incluindo no centro de Nicósia.

Um dos mais conhecidos é o da Rua Ledra, uma rua comercial no coração da cidade antiga.

Ali, podemos caminhar, passar por um controlo, mostrar identificação e continuar para o outro lado.

Em poucos minutos, muda de administração, de bandeiras, de sinais, e até de moeda usada com mais frequência.

Mas o facto de poder passar-se de um lado para o outro não significa que a divisão tenha desaparecido.

A Linha Verde continua a existir e é bem visível.

Há edifícios abandonados, zonas interditas, postos de vigilância e ruas interrompidas.

Em certos locais, a cidade parece ter continuado a viver normalmente. Noutros, parece ter ficado suspensa desde os anos 70.

O caso torna-se ainda mais curioso porque, como referi, o Chipre entrou na União Europeia em 2004.

Em teoria, toda a ilha faz parte da União Europeia.

Na prática, a legislação europeia está suspensa nas zonas onde o governo da República de Chipre não exerce controlo efetivo.

Isto cria uma situação, no mínimo, incomum: uma ilha que pertence à União Europeia, mas onde a aplicação das regras europeias não é igual em todo o território.

Esta zona-tampão é o símbolo de uma divisão política e um problema diplomático ainda por resolver.

Ao longo dos anos, houve várias tentativas de reunificação da ilha. Nenhuma conseguiu resolver definitivamente a questão.

A cidade continua a funcionar, as pessoas atravessam de um lado para o outro, há comércio, turismo e contactos entre comunidades, mas a divisão permanece.

Nicósia é muitas vezes descrita, tal como fiz no título desta newsletter, como a última capital dividida da Europa.

E talvez seja isso que a torna tão interessante. 

É uma cidade que continua a viver, com relativa naturalidade, apesar de ter uma fronteira implementada no meio por força das armas.

Se quiserem aprofundar, vejam este vídeo e leiam este artigo.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

Sua assinatura não pôde ser validada.
Obrigado! Certifica-te que recebes um email de boas-vindas nos próximos 5 minutos. Caso não o encontres, verifica também no spam. Se não tiver chegado, por favor contacta-me para fnascimento@aprendealgoantesdedormir.pt Para garantires que recebes todas as newsletters, podes marcar o email de boas-vindas como importante na tua caixa de correio. ~A partir de agora, todas as semanas vais aprender algo antes de dormir!

Torna-te naquela pessoa que tem sempre algo interessante para partilhar.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *