157# As viúvas dos tigres

Imaginem que estão a pescar, ou à procura de mel, ou apenas deitados a descansar no vosso jardim e, de repente, a vossa vida chega ao fim, porque foram atacados por um tigre, que vos comeu, pedaço por pedaço, sem vocês sequer o terem visto chegar.

Agora, imaginem que a vossa mulher, a partir do dia da vossa morte, passa a ser ostracizada e rotulada como bruxa, responsável por aquilo que vos aconteceu.

Isto podia ser um livro de ficção ou um filme de terror.

No entanto, como talvez estejam já adivinhar, isto acontece recorrentemente, em pleno século XXII.

Trata-se de uma região muito específica do planeta.

Em concreto, falo de Sundarbans, um mangue arbóreo entre o Bangladesh e a Índia, onde mais de uma centena de tigres coabitam com humanos.

Nesta região remota e extremamente pobre, o sustento vem quase exclusivamente da floresta.

Para colocar comida na mesa, os homens aventuram-se nos manguezais para recolher mel ou pescar caranguejos. 

O problema é que este é o território de caça do tigre-de-bengala.

Quando um destes homens não volta, a tragédia para a família é apenas o início de um novo pesadelo.

Entram em cena as “Tiger Widows” (viúvas do tigre).

Nas comunidades locais, devido à superstição, acredita-se que estas mulheres são “comedoras de maridos” e que trazem má sorte. 

A superstição dita que o tigre só atacou porque a esposa cometeu algum pecado ou não rezou o suficiente para os deuses da floresta.

O resultado é execrável. 

Elas passam a ser ignoradas pelos restantes membros da comunidade, por vezes expulsas das suas casas, proibidas de participar em rituais sociais e chegam até a ser abandonadas pelos próprios filhos.

Para a sociedade que as rodeia, elas tornam-se invisíveis. Pior ainda, tornam-se um presságio de azar que todos querem evitar.

Conseguem imaginar?

Para piorar a situação um pouco mais, as coisas complicam-se com a burocracia…

Como muitas destas mortes ocorrem em zonas protegidas onde a entrada é ilegal, as viúvas não conseguem sequer pedir indemnizações ao governo.

Sem marido, sem apoio social e sem meios de subsistência, estas mulheres ficam presas num ciclo de pobreza extrema, entre o trauma da perda e o peso do estigma.

É um conflito onde a preservação da natureza e a sobrevivência humana colidem de forma brutal, deixando para trás milhares de mulheres que, tecnicamente, ainda estão vivas, mas que a sociedade já enterrou.

Quando dei de caras com esta situação, não consegui (e continuo sem conseguir) deixar de pensar: é impressionante o dano que uma história fictícia, neste caso aquela que leva toda uma comunidade a acreditar na

superstição de que falamos, consegue causar.

O mundo em que vivemos é de facto um sítio brutal a todos os níveis.

Acho que nunca tivemos tanta assimetria de informação e desigualdade, embora nunca tenhamos, num cômputo geral, sido tão abastados.

Dá que pensar.

Como habitual, deixo-vos algumas coisas que consultei e que vocês deviam mesmo ver/ler: para quem tem um attention span de um hamsterpara quem quer ler uma boa reportagem, e para quem quer um vídeo mais completo e informativo.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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