Boa noite!
Nesta Páscoa estive em Oslo, na Noruega, e houve uma coisa pequena que comecei a notar por todo o lado.
Não era novo para mim, já o tinha visto tanto na Dinamarca como na Suécia.
Mas, desta vez, observei com mais atenção aquele gesto, tão banal quanto cultural.
Não era um objeto óbvio, nem propriamente vistoso.
Muita gente metia discretamente uma pequena bolsa debaixo do lábio e seguia a vida como se nada fosse.
Sem isqueiro, sem fumo, sem sair à rua.
Tratava-se de bolsas de nicotina e de snus.
Ambas se colocam debaixo do lábio.
Ambas libertam nicotina.
Mas não são o mesmo produto.
“Snus”, em sentido rigoroso, é tabaco oral.
As chamadas bolsas de nicotina fazem uma coisa parecida, mas não têm folha de tabaco.
Para quem vem de países onde o cigarro ainda é o referencial mais visível do consumo de nicotina, como em Portugal, aquilo parece estranho ao início.
Mas na Noruega não é um detalhe exótico. É parte da paisagem e há uma explicação prática para isso.
Se pensarem, num país frio, com regras apertadas para fumar em muitos espaços e com uma cultura de forte controlo do tabaco, faz sentido que muitos consumidores tenham migrado para formatos que não obrigam a acender nada nem a ir para a rua.
No entanto, perguntei-me, claro, como já antes me tinha perguntado, porque é que noutros países não se utiliza isto? Deve ser melhor para a saúde do que fumar, não?
Fui pesquisar, e descobri que a resposta séria, como de costume, não é sim nem não.
Depende do que estamos a comparar.
Se a comparação for com o cigarro, há um ponto essencial.
No cigarro, uma grande parte do dano vem da combustão e da inalação de milhares de substâncias tóxicas do fumo.
A nicotina é a substância que cria dependência, mas não é ela, sozinha, a principal responsável pelos estragos típicos do tabagismo fumado.
Apesar disso, dizer que a nicotina não é o mesmo que o fumo do cigarro não significa dizer que a nicotina “faz bem”.
Não faz. É aditiva.
Torna mais difícil largar o consumo.
Pode ser especialmente problemática na adolescência e na gravidez.
E, nas bolsas de nicotina, pode aparecer em doses muito elevadas.
Em teoria, elimina-se a folha de tabaco e parte dos compostos associados a produtos de tabaco sem combustão.
Isso significa que, à partida, o risco tende a ser inferior ao do cigarro e provavelmente também inferior ao do snus tradicional com tabaco.
Mas, descobri, inferior não é o mesmo que nulo.
O principal problema destas bolsas não é pulmonar, como no cigarro.
É sobretudo cardiovascular, comportamental e local.
A nicotina tem efeitos fisiológicos concretos.
Ativa o sistema nervoso simpático, aumenta a frequência cardíaca, eleva a pressão arterial e provoca vasoconstrição, ou seja, estreitamento dos vasos sanguíneos.
Por outras palavras, faz o coração trabalhar mais e cria um estado de estimulação que pode ser irrelevante para uns e menos inocente para outros, sobretudo para quem já tem hipertensão, predisposição para arritmias ou risco cardiovascular.
Há ainda um aspeto curioso e comportamental.
Como estas bolsas são discretas, não cheiram e não obrigam a sair à rua, resolvem um dos grandes ‘custos logísticos’ do consumo de nicotina.
E isso, claro, torna-as num hábito mais fácil de adquirir.
Ou seja, parte do perigo não está apenas na substância em si, mas também na facilidade com que o hábito se instala na rotina.
No fundo, talvez a melhor forma de pensar nisto seja esta: o cigarro mata sobretudo pelo fumo; as bolsas de nicotina não têm esse fumo, mas tornam a nicotina mais limpa à vista, mais socialmente invisível e, por isso mesmo, em certos contextos, mais fácil de normalizar.
E talvez seja precisamente aí que esteja a sua maior força e o seu maior risco.
Se se estiverem a perguntar, em Portugal, o snus, que tem tabaco, continua proibido, enquanto as bolsas de nicotina sem tabaco passaram a ter enquadramento fiscal próprio este ano e foram noticiadas como entrando na venda legal em canais autorizados.
Digo-vos ainda que eu próprio experimentei snus pela primeira vez quando lá estive, nesta Páscoa, e não é uma sensação nada agradável, apesar de, segundo me disseram, ter que ver com o facto de ter sido a primeira vez.
Uma coisa é certa, não vou dar uma segunda chance…
Apesar da má experiência, não me arrependi de experimentar.
São as experiências que nos enriquecem, sejam elas boas ou más 😉
Como de costume, seguem 2 vídeos muito giros sobre o tema: aqui e aqui.
Por hoje é tudo.
Se gostaram, por favor ponderem contribuir para este projeto.
Até quarta,
Francisco

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