Esta semana, numa hora de almoço, tropecei num vídeo que originou este texto.
Esse vídeo é sobre o homem que operou a maior fraude em larga escala alguma vez vista em Portugal!
Sinceramente, não sei como ainda não existe um documentário sobre isto…
Mas, pelo menos, há uma newsletter 😉
Agora quero que imagines que decides falsificar notas…
Provavelmente pensas numa cave escura, numa máquina tipográfica escondida, em papel que nunca fica igual e em tinta que borra nos sítios errados.
É assim nos filmes. E é assim que quase toda a gente é apanhada.
Mas em 1924, um português preso no Porto por desfalque e negócio de armas teve uma ideia melhor…
E se as notas fossem verdadeiras?
O homem chamava-se Artur Virgílio Alves Reis. Filho de um cangalheiro lisboeta que tinha acabado por ser declarado insolvente.
Começou engenharia e desistiu. Para conseguir entrar na função pública em Angola, em 1916, apresentou um diploma da “Polytechnic School of Engineering” da Universidade de Oxford.
Uma escola que… nunca existiu!
Segundo o próprio diploma, ele tinha estudos em engenharia, geologia, geometria, física, metalurgia, matemática pura, engenharia elétrica, engenharia mecânica, engenharia civil… e paleografia.
Ou seja, tinha estudado tudo e sabia fazer tudo.
Anos depois, de volta a Lisboa, um esquema com cheques sem cobertura descarrilou e ele foi preso. Esteve 54 dias na cadeia e saiu a 27 de agosto de 1924.
Diz-se que foi lá dentro que desenhou o plano.
E o plano nasceu de duas coisas que ele leu e percebeu antes de toda a gente…
A primeira foi que existia um método irregular de emitir moeda: o Banco de Portugal mandava imprimir notas em segredo, sem as registar nos livros e sem informar o governo.
A segunda foi ainda melhor. O Banco de Portugal não tinha nenhum departamento encarregado de verificar se havia números de série repetidos.
Reparem no que isto significa.
Quem imprimia as notas do Banco de Portugal não era o Banco de Portugal.
Era uma tipografia inglesa, a Waterlow & Sons, em Londres.
Se conseguisse convencer a Waterlow de que o Banco de Portugal queria uma nova encomenda, as notas sairiam das chapas verdadeiras, no papel verdadeiro, com a tinta verdadeira.
Não seriam falsificações. Seriam notas autênticas, impressas por quem tinha autorização para as imprimir.
E como se convence uma tipografia dessas?
Com papelada.
Alves Reis forjou um contrato, escrito em papel selado – o papel oficial em que se faziam todos os atos do Estado -, conseguiu que fosse reconhecido num notário, e falsificou as assinaturas da administração do Banco de Portugal.
Depois traduziu-o para francês e ainda o fez validar por consulados estrangeiros.
O contrato autorizava a impressão de até 200 mil notas de 500 escudos e 100 mil notas de 1000 escudos.
A história que contou era esta: tratava-se de um empréstimo secreto de 1,3 milhões de libras para desenvolver Angola.
Como a administração do banco estava dividida sobre o assunto, tinha de ser tudo feito com a máxima discrição, e ele seria o único intermediário.
A 4 de dezembro de 1924, um cúmplice holandês entrou pela primeira vez na Waterlow.
A Waterlow desconfiou.
Pediu autorização expressa do governador do Banco de Portugal, Camacho Rodrigues, antes de usar as chapas.
O pedido chegou a… Alves Reis.
E foi Alves Reis quem escreveu a resposta, em nome do governador, a agradecer o cuidado da empresa em consultá-lo e a autorizar a aceitação da encomenda.
Sir William Waterlow chegou mesmo a escrever ao governador, contra as regras impostas pelos conspiradores.
A carta perdeu-se pelo caminho.
E as máquinas começaram a trabalhar!
Foram impressas 200 mil notas de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama, datadas de 17 de novembro de 1922. Cem milhões de escudos, pouco mais de um milhão de libras da altura.
Para se perceber a escala: equivalia a 0,88% do PIB português e fez a base monetária do país subir cerca de 6%.
A dada altura, o número de notas de 500 escudos ilegítimas a circular em Portugal era quase igual ao número de notas legítimas.
E, curiosamente, o mentor de tudo isto ficava só com um quarto das notas. O resto era dos cúmplices.
Ainda assim chegou. As notas entravam por mala diplomática. Com a parte dele, Alves Reis comprou o Palácio do Menino de Ouro (hoje o edifício do British Council em Lisboa), três quintas, uma frota de táxis, e ainda tentou comprar o Diário de Notícias.
Mas nada disto era o objetivo final.
O que é que se faz com uma montanha de dinheiro que não se pode explicar?
Fundou um banco, o Banco Angola e Metrópole, em junho de 1925. E começou a comprar ações… do Banco de Portugal.
Reparem na lógica. O Banco de Portugal era então uma instituição privada, e era a única entidade com poder para mover um processo contra quem falsificasse as suas notas.
Se ele controlasse o banco, o crime deixava de ter quem o acusasse.
Precisava de 45 mil ações com direito de voto.
Em meados de setembro tinha pouco mais de 7 mil. No final de setembro, 9 mil. No início de novembro, 10 mil.
Mas, claro, a ostentação acabou por tramá-lo.
A partir de 23 de novembro de 1925, os jornalistas de O Século começaram a publicar artigos com uma pergunta muito simples: como é que um banco novo consegue emprestar somas enormes a juros baixos sem receber depósitos?
De onde vem o dinheiro?
A investigação levou às casas de câmbio do Porto, onde o banco depositava quantidades absurdas de notas novas de 500 escudos.
Ao início não encontraram nada. As notas estavam impecáveis, porque eram impecáveis!
Até que alguém se lembrou de olhar para os números de série.
E encontrou duas notas com o mesmo número.
A 5 de dezembro, O Século contava tudo ao país.
No dia seguinte, a administração do Banco de Portugal reuniu-se e concluiu que era praticamente impossível distinguir umas notas das outras.
Fez a única coisa que podia fazer: mandou retirar de circulação todas as notas de 500 escudos, verdadeiras e não verdadeiras.
Houve corridas aos bancos e a polícia teve de intervir nas cidades maiores. Até 26 de dezembro, foram recolhidas 115 mil notas.
Alves Reis foi preso a 6 de dezembro, a bordo do navio que o trazia de Angola.
Foi condenado a 20 anos, em 1930. Saiu da prisão em maio de 1945.
E sabem o que fez sete anos depois de sair?
Voltou a burlar. Em 1952, vendeu a um negociante de Lisboa 6400 arrobas de café angolano que não existiam.
Morreu em julho de 1955, de enfarte, sem fortuna nenhuma.
Do outro lado, em Londres, a história não acabou melhor.
O Banco de Portugal processou a Waterlow & Sons. O caso arrastou-se anos e chegou à Câmara dos Lordes, que em abril de 1932 condenou a tipografia a pagar 610 392 libras.
E Portugal, perguntam vocês?
Pouco tempo depois, a 28 de maio de 1926, um golpe militar acabou com a Primeira República.
Seguiu-se a ditadura militar, Salazar como ministro das Finanças em 1928, e um regime que só cairia em 1974.
E vocês? Já conheciam esta história?
Se quiserem aprofundar, vejam este artigo, este vídeo e, para quem quiser mesmo ir ao fundo, este estudo da London School of Economics sobre os efeitos da crise.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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