Se acompanhas esta newsletter é justo assumir que és uma pessoa minimamente curiosa. Da curiosidade à ação é um saltinho e, muitas vezes, esse salto acontece através do voluntariado.
Hoje vou falar-te sobre o outro lado do voluntariado, o qual me era desconhecido até ter fundado uma Associação Juvenil.
O que leva alguém a dedicar parte do seu tempo livre a uma causa ou projeto sem receber nada em troca? Para mim a resposta era óbvia.
Sempre me senti motivado em ajudar o próximo, tornando o mundo num lugar melhor. O sentimento de pertença a uma comunidade e de ver o impacto positivo das nossas ações à nossa volta, era mais do que suficiente.
Fiz vários voluntariados desde novo, desde pontuais a recorrentes por onde fui passando. E, regressado de 8 anos no estrangeiro, passando por mais de 70 países, decidi aos 28 anos voltar a fazer voluntariado em Portugal. Rapidamente me deparei com vários problemas estruturais, principalmente na dificuldade que era ficar ao corrente das oportunidades para os jovens, e também do que estava a acontecer tanto no Parlamento Nacional como no Europeu.
Falei com alguns amigos, e assim surgiu a Associação Política Factual XXI, um grupo de 15 jovens prontos a resolver esses problemas. E, em pouco mais de um ano, esse grupo mudou, uns saíram, muitos entraram, e passámos a ser mais de 80 jovens, não só de Portugal, mas também de vários países da União Europeia.
E, do nada, surgiu a responsabilidade. A Associação passou a ter 36 parcerias com instituições de peso, e colaborações de relevo, incluindo mais de 30 colaborações no Instagram com eurodeputados/as de toda a Europa.
Garantir que a Associação ia de encontro às expectativas e motivações de tantas pessoas diferentes tem sido um grande desafio. Dei por mim a fazer coisas pouco intuitivas, como dizer a voluntários/as que não podiam trabalhar mais no projeto naquela semana. Estranho? Eu explico.
Comecemos pelo início: uma Associação tem na sua base os órgãos sociais, que garantem o funcionamento da Associação e têm de ter no mínimo 9 pessoas. Dividem-se em três, na Direção, Conselho Fiscal e Mesa da Assembleia Geral. Todos eles têm de ter um número ímpar de membros, e têm de ter pelo menos 3 pessoas diferentes em cada. Para ser uma Associação Juvenil, têm de ter pelo menos 15 associados, dos quais 80% com 35 anos ou menos.
As Associações Juvenis podem associar-se à FNAJ (Federação Nacional de Associações Juvenis), que permite aceder a recursos úteis, trocar experiências, participar em eventos, e aprender muito.
E agora a parte difícil: gerir voluntários. É importante no recrutamento perceber a motivação e a experiência da pessoa. Há quem participe pela causa, ou para desenvolver novas competências enquanto contribui para um projeto, ou simplesmente para conhecer pessoas com os mesmos interesses.
Uma boa prática que temos são as sessões de feedback individuais a cada 3 meses. A vida acontece, e, por vezes, as motivações alteram-se e as disponibilidades também. É importante também lembrar que o voluntariado é uma aprendizagem, principalmente na gestão de tempo.
E é aí que surge o papel importante de zelar pelo bem-estar da equipa, mais importante do que a causa, e isso implica também reconhecer os limites das pessoas. E daí surgirem situações de não deixar a pessoa trabalhar nessa semana, garantindo que a pessoa tem tempo também para si, os seus, e as outras responsabilidades. Algo que ajuda muito é ter documentação e que mais do que uma pessoa consiga realizar a mesma tarefa, diminuindo dependências.
E, por fim, o tema tabu: convidar voluntários/as a sair do projeto. É fácil de questionar o porquê de o fazer, principalmente a alguém que se disponibilizou para ajudar um projeto de forma voluntária, sem pedir nada em troca.
No entanto, gerir uma equipa em regime de voluntariado também é desgastante, sendo importante saber encontrar um equilíbrio e ser consciente de que tudo tem um preço. Nem toda a gente têm capacidade de participar de forma ativa no projeto, sendo necessário estar a reintroduzir constantemente uma pessoa ao projeto e às tarefas, o que se pode tornar insustentável, levando à difícil decisão de, falando com a pessoa, pedir-lhe que regresse ao projeto quando sentir que terá de facto capacidade de contribuir de forma ativa.
Talvez o sucesso de uma experiência de voluntariado se resuma a uma palavra: compromisso.
José d’Assis Cordeiro,
Presidente da Direção da Associação Política Factual XXI, Fundador do Manual da Juventude e Engenheiro Informático de formação
Link úteis:
FNAJ
Associação na Hora (IRN)
RNAJ
Manual do Associativismo

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