Na sociedade ocidental, em que vivemos, o suicídio é normalmente olhado sob uma perspetiva de dor, mágoa ou depressão.
Há pouco tempo atrás, ouvi pela primeira vez o conceito de Seppuku.
Também conhecido como hara-kiri, é um conceito japonês, proveniente do Japão feudal, que se baseia na ideia de uma pessoa tirar a sua própria vida por uma questão de honra.
Ligado aos samurais, membros da classe guerreira do Japão, o método original consiste em espetar um punhal no lado esquerdo da barriga, levá-lo até ao lado direito, na horizontal, e de seguida para cima, na vertical, no sentido da garganta.
Neste momento vocês devem estar a perguntar-se porque raio alguém haveria de fazer tal coisa.
Numa síntese que ficou célebre no Código Samurai, Yamamoto Tsunetomo escreveu no século XVII: “O caminho do samurai é a morte.”
Ora, isto não se referia apenas à ideia de que um samurai acabaria por morrer em combate, mas também ao facto de que ele jamais deveria aceitar render-se, preferindo morrer.
Apesar disso, o Seppuku não se limitava ao suicídio para evitar a captura pelo inimigo.
Ele podia assumir vários sentidos: expiar a culpa por um erro (sokotsu-shi), tornar pública uma repreensão (funshi) ou contestar uma decisão considerada injusta (kanshi).
Existia ainda a possibilidade de servir para afirmar a própria inocência (memboku) ou para seguir o seu senhor na morte (junshi).
Se estão a perguntar-se porque é que a morte era consubstanciada em algo tão brutal e doloroso, tal prendia-se na crença de que no baixo ventre residia o calor e a alma humana e que, ao abri-lo, o suicida libertava assim o seu espírito.
No termo hara–kiri, um sinónimo de Seppuku mais utilizado no ocidente (embora raramente usado pelos japoneses), hara significa “estômago” e kiri “cortar”.
Apesar desta coragem brutal, e para dar alguma dignidade e acabar com o sofrimento, era frequente haver um outro elemento no momento do suicídio, chamado kaishakunin, para decapitar o suicida mal este se apunhalasse.
Sendo verdade que a maioria destes atos eram voluntários, existia outra modalidade de Seppuku: a obrigatória.
O seppuku obrigatório era usado como forma de pena de morte para samurais desonrados que tinham cometido atos de traição ou crimes violentos.
Também podia ser exigido pelo vencedor de um conflito como condição de rendição e de paz posterior.
Nesses casos, o(s) líder(es) do lado derrotado eram forçados a cometer seppuku, eliminando qualquer oposição política e militar ao vencedor.
O tipo de seppuku forçado contra a vontade do samurai é chamado tsumebara.
No momento em que o suicídio obrigatório acontecia dava-se grande importância ao cumprimento do protocolo cerimonial e, regra geral, o ato decorria na presença de um testemunho oficial (kenshi) enviado pela autoridade que determinava a sentença.
O condenado sentava-se sobre tatamis, e um segundo interveniente, o kaishakunin que expliquei há pouco, muitas vezes alguém próximo, mantinha-se atrás, pronto para intervir (leia-se: cortar a cabeça) de modo a abreviar o sofrimento no momento adequado.
A morte era, assim, atribuída formalmente ao seppuku, mesmo quando a intervenção do assistente ocorria logo que o condenado iniciava o ritual ou fazia o gesto de alcançar a lâmina.
Normalmente, após o ritual, a cabeça do morto era limpa e enviada à família do suicida.
No meio de tudo isto, não consigo deixar de refletir sobre como o mesmo ato pode ter razões e significados tão diferentes de cultura para cultura.
Embora sejamos todos animais teoricamente muito parecidos, a forma e o local onde somos educados faz uma diferença brutal.
E é isso que faz da diferença algo tão enriquecedor!
Deixo-vos ainda algumas fontes que utilizei:
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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