135# O admirável mundo das diferenças culturais

Olá!

Este fim de semana fui a uma conferência e assisti a um workshop chamado “Cross-Cultural Communication”

Tenho que vos ser sincero: pensava que ia ser mais do mesmo – diferenças culturais na negociação que, sendo interessantes, já ouvi centenas de vezes.

Acontece que a vida surpreende-nos, e o autor do workshop, de seu nome Salvador, que era alguém que já tinha mais de uma década de trabalho na área da construção pelo mundo, contou histórias que me deixaram a pensar bastante.

Partilho com vocês uma delas…

Ele estava nos Camarões a construir um hospital e, no fim de um dia em que todos os trabalhadores tinham recebido o seu salário mensal, convidou-os para irem jantar.

Um deles, apesar de ter recebido o equivalente a um mês de trabalho nesse dia, respondeu, com a maior naturalidade, que não podia porque já não tinha dinheiro.

O Salvador, compreensivelmente, mostrou-se pasmado e questionou-o onde tinha gasto todo o dinheiro que havia recebido.

A resposta foi: “Então, uma parte dei à minha mãe para arranjar o seu carro, outra parte dei a um amigo, porque ele precisava, e o resto dei ao meu vizinho, para ele mudar as telhas da casa dele.”

Boquiaberto com a resposta, o Salvador retorquiu: “Ok, à tua mãe e ao teu amigo ainda percebo, mas ao teu vizinho?!”

Ao que o rapaz lhe respondeu: “Senhor, não está a perceber. Foram eles que me arranjaram dinheiro para estudar. Se não fossem eles, eu nunca teria recebido esse dinheiro.”

Basicamente, esta história ilustra algo que é impensável numa sociedade ocidental, mas que, pelos vistos, é o normal na cultura deste país africano. E desconfio que não seja o único…

Para esta newsletter, decidi juntar alguma práticas que seriam impensáveis de acontecer em Portugal, mas que acontecem noutros países e nos podem fazer refletir…

Adormecer ao longo do dia

Existe uma prática no Japão, o inemuri, que consiste em adormecer em público, nomeadamente em reuniões de trabalho. 

Tal não é visto automaticamente como preguiça, mas muitas vezes como sinal de esforço. A pessoa trabalha tanto e tem dias tão longos que acaba por adormecer.

Desde que não seja barulhento nem perturbador, o inemuri é socialmente tolerado e é até interpretado como um “excesso de dedicação”. 

Agora imaginem isto em Portugal…

Transparência nos rendimentos

Nos países nórdicos é possível a qualquer pessoa consultar os rendimentos de qualquer outro concidadão.

Na Finlândia, quando são divulgadas anualmente as declarações fiscais dos que mais ganham, o momento é conhecido como o “dia nacional da inveja”. 

Na Suécia, basta um telefonema para obter a informação dos rendimentos tanto de um deputado como de um vizinho padeiro. E, atenção, não falamos só de salário! Falamos de rendimentos totais, tendo em conta investimentos e património. 

Na Noruega, chegou a ser possível consultar os rendimentos de forma anónima, algo que entretanto mudou, sendo que agora é preciso os interessados identificarem-se. O interesse dos cidadãos pelos rendimentos uns dos outros é conhecido por “pornografia financeira”.

Agora imaginem isto em Portugal…

Nudez nas saunas

Na Finlândia (e também noutros países nórdicos), não é anormal ir em família à sauna com toda a gente nua – homens e mulheres.

Ou seja, imaginem pais, filhos, tios, avós a irem todos nus para dentro do mesmo espaço sem que haja qualquer pensamento secundário em relação a isso.

Mais uma vez, agora imaginem isto em Portugal…

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Para não tornar a newsletter demasiado longa, fico por aqui, mas encorajo-vos a explorarem outras diferenças culturais brutais que existem!

Como uma, que uma vez ouvi, de um país onde as pessoas que chegam mais cedo ao trabalho deixam o carro estacionado mais longe para que os seus colegas que chegam mais em cima da hora possam estacionar mais perto e não cheguem atrasados.

Para mim, o mais interessante destas diferenças culturais é que têm única e exclusivamente uma razão: a forma de encarar as coisas.

Aquilo que é normal ou não é ditado por uma invenção e/ou repetição exaustiva de ações e pensamentos que nos leva a torná-la numa norma social.

E essa norma social leva-nos a encarar os comportamento de certa forma.

Pensem comigo: será que alguém que adormece no trabalho tem que ser alguém perguiçoso? Não poderá ser alguém que devido ao seu trabalho exaustivo, profissional e familiar, é um autêntico super herói?

Eu não tenho resposta para isso, mas tenho muitas perguntas 🙂

Por hoje é tudo!

Até quarta,

Francisco

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