Boa noite!
Várias vezes ao longo da minha vida me disseram que afogado é a maneira mais dolorosa de morrer.
No entanto, sempre me questionei como tal poderia ser pior do que morrer queimado, por exemplo.
A verdade é que sempre tive curiosidade de perceber o que sentimos antes de morrer de diversas formas.
Por isso, claro, fui pesquisar e descobri que já há mais literatura sobre o tema do que eu pensava.
Nesta newsletter vou focar-me em 4 maneiras específicas de morrer e tentar descrever o que acontece no processo.
Tentei traduzir ao máximo um fenómeno extremamente complexo para linguagem leiga!
Antes de avançar, quero deixar um disclamer…
O objetivo de escrever sobre isto não é chocar. É, isso sim, explicar, com base na fisiologia e na medicina legal, o que acontece nestas circunstâncias e que o corpo tenta fazer para sobreviver.
Here we go…
1 – Afogamento
O primeiro instinto é prender o ar, a chamada a apneia voluntária, que é uma resposta de sobrevivência. O dióxido de carbono sobe no sangue e a urgência de inspirar torna-se quase impossível de controlar.
Depois, a laringe fecha-se automaticamente (laringoespasmo) para não deixar entrar água. É um “ganho de tempo”, porque protege as vias aéreas, mas não resolve a falta de oxigénio (hipóxia).
Quando o espasmo cede, entra água e a membrana dos alvéolos (onde trocamos gases) deixa de conseguir oxigenar o sangue. O corpo perde coordenação, surgem confusão e pânico curto.
Segue-se perda de consciência por falta de oxigénio no cérebro (hipoxia cerebral). Podem surgir respirações agónicas (gasping), mas que são ineficazes, e depois bradicardia (pulsações muito baixas) e atividade elétrica sem pulso até à assistolia (paragem elétrica).
Sem reanimação, a morte consuma-se.
À medida que o oxigénio no cérebro desce e o dióxido de carbono sobe (hipercápnia), muitos sobreviventes descrevem uma fase terminal inesperadamente serena (sensação de euforia, dissolução do medo, e às vezes “luzes/cores”) antes de perder a consciência.
Em medicina forense, isto é interpretado como euforia da hipóxia (estado de bem-estar provocado pela falta de oxigénio) possivelmente modulada por endorfinas e pela resolução do pânico quando já não há força para lutar.
É um fenómeno relatado por algumas pessoas (não todas), mas difícil de medir em tempo real. A melhor evidência vem de testemunhos e de analogias com modelos controlados de hipóxia, mas, ainda assim, não é possível ter provas concretas do que realmente acontece.
2 – Queimado
No início, como facilmente imaginamos, a dor é intensa e imediata. A pele deixa de proteger e o corpo reage como se tivesse sido aberto por dentro.
Os vasos sanguíneos muito finos da pele e dos tecidos começam a “pingar” líquido. Esse líquido é a parte aquosa do sangue (plasma) e sai para os tecidos.
Com essa perda, fica a circular menos sangue. O corpo tenta compensar, mas, sem fluidos, aproxima-se um “apagão da circulação” por falta de volume a correr nas veias e artérias (choque por falta de sangue a circular).
O organismo acelera o coração e fecha vasos para manter os órgãos vivos. Ainda assim, se não entrar líquido e oxigénio suficientes, chega menos sangue a órgãos como rins, fígado e cérebro.
Se não morrermos logo, depois do “fogo apagado”, em horas, surge outro perigo: a infeção generalizada. O sistema imunitário reage de forma descontrolada e temos sépsis, que é a inflamação do corpo todo por causa de uma infeção.
Quando os órgãos ficam tempo demais sem sangue e oxigénio, os tecidos funcionam pior e o sangue torna-se mais ácido (acidose). Ao mesmo tempo, o sangue coagula pior (coagulopatia) e as hemorragias agravam-se.
A fase final é queda da pressão, batimentos irregulares e, por fim, atividade elétrica sem pulso e paragem elétrica do coração, tal como no afogamento.
Mais uma vez, sem reanimação eficaz, a morte consuma-se.
Perto do fim, algumas pessoas entram num torpor calmo, como uma sonolência.
Isto explica-se por pouco sangue a chegar ao cérebro, pela inflamação e pela libertação de substâncias que atenuam a dor.
3 – Ferimento por arma de fogo
Neste caso, depende do local do corpo atingido pela bala, claro.
No entanto, a ameaça principal é quase sempre perda rápida de sangue (hemorragia). Menos sangue a circular significa menos força para o coração bombear.
Quando a pressão cai, chega pouco oxigénio ao cérebro. Aparecem tonturas, visão a “apertar” e fraqueza.
Se um vaso grande é atingido, a pessoa provavelmente cairá inanimada imediatamente ou em poucos segundos. Tudo depende do local e da quantidade de sangue perdido.
Instala-se um ciclo vicioso: tecidos sem oxigénio, sangue mais ácido e o sistema de estancar hemorragias a falhar. Quando isto acontece ao mesmo tempo, o corpo entra em colapso.
A seguir vem a atividade elétrica sem pulso e depois a paragem elétrica do coração.
Sem travar a hemorragia de imediato e sem repor volume, a morte acaba por acontecer, daí que seja tão importante a assistência médica rápida.
Há, também, relatos de calma inesperada nos instantes antes do “apagão”.
Tal é compatível com pouco sangue e oxigénio a chegar ao cérebro, como nos tipos de morte anteriores, o que reduz a dor e a ansiedade por breves momentos antes do fim.
Não obstante, se o tiro destruir o coração ou a zona que comanda a respiração no cérebro, o colapso é tão rápido que não há possibilidade de qualquer experiência consciente do momento final.
4 – Hipotermia
A hipotermia acontece quando a perda de calor do corpo é maior do que a produção/conservação, fazendo a temperatura corporal central descer abaixo de 35 °C.
Ao início, trememos e o corpo fecha os vasos da pele para guardar calor no centro (vasoconstrição). É a tentativa de manter quentes o coração, os pulmões e o cérebro.
Com a temperatura a cair, a coordenação falha e o pensamento abranda. O coração bate mais devagar e fica instável, fácil de entrar em batimentos caóticos.
Chega uma fase em que algumas pessoas se despem, apesar do frio (despimento paradoxal).
Eu sei que parece absurdo, mas é uma ilusão de calor porque os vasos voltam a abrir de repente e o controlo corporal da temperatura falha.
Muitas vítimas procuram um cantinho para se enroscarem e “adormecer”. É um comportamento instintivo de abrigo no fim (hide-and-die).
A inconsciência costuma chegar antes da paragem. A sequência terminal típica é batimento caótico dos ventrículos (fibrilhação ventricular) e, depois, paragem elétrica do coração.
Sem reaquecimento e reanimação, a morte dá-se.
Em hipotermia muito profunda, há um princípio clínico importante (e intrigante): ninguém é dado como morto até estar reaquecido e, ainda assim, não dar sinais de vida.
Há relatos de serenidade final, como um adormecer tranquilo.
Explica-se, tal como nos restantes tipos de morte, por menos sangue e oxigénio a chegar ao cérebro e por substâncias naturais que aliviam o desconforto.
Com tudo isto, espero que não se estejam a sentir mal-dispostos, mais mais elucidados 😉
Deixo-vos, ainda, algumas fontes que usei para cada uma das formas de morrer:
- Afogamento: papers aqui e aqui; vídeos aqui e aqui.
- Queimadura: papers aqui e aqui; vídeos aqui.
- Ferimento por arma de fogo: paper aqui; vídeo aqui.
- Hipotermia: papers aqui e aqui; vídeos aqui e aqui.
Por hoje é tudo.
Como não podia deixar de ser, pedia-vos encarecidamente que seguissem as páginas deste projeto no instagram e no linkedin (botões abaixo). Vou começar a postar coisas bem interessantes e a ter rubricas semanais 😉
Até quarta,
Francisco

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