Boa noite!
Como alguém que tem a sorte de já ter viajado bastante, em grande parte graças a companhias aéreas como a Ryanair e a easyJet, já me questionei várias vezes como é que estas empresas conseguem ser lucrativas.
Isto porque um negócio que envolve aviões, muitos recursos humanos e uma quantidade absurda de combustível não parece, à partida, compatível com voos de 15€ (eu já fui a Londres e voltei por 24€, por exemplo).
Como a maior parte das pessoas, eu acreditava que grande parte do dinheiro que faziam vinha de cobrança por excesso de bagagem e de venda de comida e raspadinhas durante os voos.
A verdade é que depois de alguma pesquisa, percebi que era bem mais do que isso! Na verdade, é um conjunto de pequenos fatores que, quando juntos, culminam em rentabilidades bastante interessantes. Vamos então por pontos…
Em primeiro lugar, estas companhias aéreas voam frequentemente para aeroportos secundários. Estes aeroportos, muitas vezes só existem por causa destas companhias. Isto significa que as mesmas têm um grande poder negocial, o que lhes permite ter slots por preços bastante simpáticos.
O segundo truque é usar os aviões ao máximo, todos os dias. “Turnarounds” curtos significam mais voos com o mesmo avião. Para isso, tudo é pensado para ganhar minutos. Escadas à frente e atrás, limpeza rápida e posições remotas evitam filas nas mangas.
A rede também ajuda: voos ponto-a-ponto, com ligações independentes. Não há bagagem a trocar entre voos e, assim, menos indemnizações por atrasos em cascata.
Para além disso, a frota é praticamente toda igual (a Ryanair só usa aviões 737 e a easyJet a320, por exemplo). Ou seja, isto permite uma standardização da manutenção, peças e formação que torna tudo mais simples e barato.
Na compra de aviões, como as encomendas são grandes e sempre do mesmo modelo, esse maior volume traz melhores preços (descontos rappel) e operações mais previsíveis.
Depois, dentro do avião, só há uma classe e muitos lugares. As cadeiras não reclinam, o que diminui os arranjos dos assentos, e há menos “tralha” a bordo (devido às políticas de bagagem), o que facilita a limpeza.
O facto das reservas serem maioritariamente feitas diretamente no site ou na app, permite-lhes, também, fugir a comissões de intermediários.
Claro que os fatores que referi no início da newsletter também são uma fonte receita significativa. O preço que vemos é sempre o base. Tudo o resto é à la carte: mala, lugar, embarque prioritário, comida e até o método de pagamento, por vezes.
Os preços mudam muito porque o objetivo é encher lugares. É tão simples como: se o avião está vazio, baixam; se está quase cheio, sobem – procura e oferta no seu estado puro! Ou seja, embora nós tenhamos mais visibilidade para os voos de 50€, por vezes também os vendem a 500€.
As equipas são, ainda, polivalentes. Muitas vezes os hospedeiros de bordo são as mesmas pessoas que que fazem o boarding (confirmação do documento de identificação e bilhete). Os serviços só são terceirizados em terra quando compensa. O foco é pagar apenas pelo que traz mais eficiência.
O facto de terem muitas rotas para zonas menos ‘servidas’ (como o Porto, por exemplo) faz, também, com que possa haver negociação com os líderes das regiões, podendo negociar-se, por exemplo, taxas mais baixas para as slots e apoios de marketing.
Como se não bastasse tudo isto, há ainda receita fora do bilhete. Seguros, transfers, aluguer de carros, cartões e publicidade a bordo completam o negócio.
No fundo, o voo barato existe porque a operação é rápida, simples e standardizada – tudo isto baseado no conceito de lean management.
O bilhete base é um convite e cada extra paga o conforto que cada um quer. Pessoas como eu, que estão simplesmente dedicadas a chegar do ponto A ao ponto B, independentemente do conforto, são muito felizes com isso 😁
Depois de investigar e perceber tudo isto, não consigo deixar de ficar extremamente impressionado com a audácia dos investidores que puseram dinheiro nestes negócios e dos executivos que os gerem – estes últimos personificados pelo carismático, polémico e bilionário (!) Michael O’Leary (CEO da Ryanair).
Estas empresas são sustentadas em modelos de negócio que quase parecem baseados em nuances, mas que na verdade foram milimetricamente pensados!
E isto é incrível, na minha opinião, principalmente porque é uma situação de win-win: permite que a grande maioria das pessoas, independentemente do seu poder financeiro, possa viajar para outros países e as companhias aéreas ainda são recompensadas a níveis financeiros por permitirem que isso aconteça (as lowcost são, no geral, mais rentáveis que as airlines tradicionais).
Para terminar deixo-vos ainda o vídeo com o qual acidentalmente me cruzei e que foi o gatilho para o tema desta newsletter.
Relembro ainda que criei um sistema de donativos para ajudar a dar sustentabilidade a este projeto. Quem quiser contribuir pode fazê-lo aqui ou no botão em baixo. O Francisco agradece muito 🙂
Podem ainda seguir o projeto no LinkedIn ou no Instagram.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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