Boa noite!
No preciso momento em que esta newsletter sair, estarei provavelmente numa interminável fila de carros à espera de entrar para o festival Boom.
Não sou muito de festivais. Tive a minha dose quando era mais novo e, hoje em dia, não aprecio particularmente o conceito de estar no meio de uma multidão aos encontrões com pessoas, no meio de fumo e bebida.
No entanto, decidi vir ao Boom! O Boom é algo, pela pesquisa que fiz e pessoas com quem falei, bastante longe da tradicional ideia de festival, como a que mencionei no parágrafo anterior.
Para perceber melhor no que se baseia, decidi fazer eu próprio uma pesquisa mais intensiva, para ir melhor preparado e para vos dar a conhecer o universo Boom…
O festival Boom é um evento que acontece de 2 em 2 anos de cultura alternativa que decorre em Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, junto à albufeira da barragem de Marechal Carmona.
A primeira edição foi em 1997, como uma festa dedicada à música goa trance, mas rapidamente evoluiu para um dos maiores encontros mundiais de contracultura, espiritualidade e sustentabilidade.
O festival atrai pessoas de mais de 150 países e não tem cartaz com nomes comerciais. A música é sobretudo eletrónica, com destaque para o psytrance, downtempo, ambient e bass music, mas o foco está na experiência coletiva e na participação ativa do público.
O Boom não aceita patrocínios, não exibe publicidade nem vende marcas dentro do recinto. É autogerido pela organização Good Mood Productions e assume-se como um projeto cultural independente, com forte componente ambiental e comunitária.
O recinto é desenhado como uma aldeia temporária, com zonas distintas: o Dance Temple (palco principal), o Alchemy Circle (palco de experiências sonoras mais experimentais), o Sacred Fire (concertos acústicos e debates), o Being Fields (dedicado ao bem-estar, yoga, meditação e terapias), o Liminal Village (palestras, ciência e ecologia), e o Young Dragons (atividades para crianças e famílias).
As estruturas são construídas em madeira, bambu, terra e outros materiais naturais, seguindo princípios de bioconstrução e design regenerativo. Algumas são desmanteladas e reaproveitadas, outras queimadas de forma simbólica no final do festival.
O Boom tornou-se uma referência mundial em práticas sustentáveis. Trata 100% da sua água usada, usa compostagem para resíduos humanos (sem casas de banho químicas), disponibiliza água potável gratuita, estimula a partilha de boleias e privilegia alimentos biológicos e locais. Em 2008 foi o primeiro festival a receber o prémio “Outstanding Greener Festival”, tendo-o repetido várias vezes desde então.
A gestão de resíduos é feita com mais de 20 tipos de separação. A eletricidade vem parcialmente de painéis solares e geradores a biodiesel. O impacto ambiental é medido com relatórios detalhados, e há voluntários especializados em “limpeza educativa”.
O número de bilhetes é limitado — cerca de 40 mil — para não sobrecarregar a ecologia da região. As edições esgotam normalmente nos 2 primeiros dias, apesar do preço elevado do bilhete, que começa em quase 300€. O festival dura uma semana inteira.
O Boom também promove a inclusão social e cultural, recebendo desde famílias com crianças a comunidades indígenas, artistas de rua, académicos e terapeutas. Não há zonas VIP nem hierarquias visíveis: todos os participantes têm o mesmo estatuto.
A alimentação no recinto é maioritariamente vegetariana, servida por dezenas de cozinhas do mundo inteiro. Há mercados de artesanato, instalações interativas e espaços para oficinas sobre temas como permacultura, respiração consciente, fitoterapia ou expressão corporal.
Curiosamente, o Boom é estudado em universidades como caso de sucesso de sustentabilidade cultural, inovação organizacional e criação de comunidades temporárias. É também um exemplo de como um festival pode atuar como laboratório vivo de práticas ecológicas.
A relação com a comunidade local é um ponto forte. Parte das receitas é reinvestida em projetos em Idanha-a-Nova, e há emprego direto e indireto para centenas de pessoas da região. A câmara municipal apoia a realização do evento, reconhecendo o seu valor económico e simbólico.
Mais do que um festival, o Boom é uma experiência imersiva e multidisciplinar, desenhada para provocar reflexão, partilha e transformação pessoal. Não se apresenta como um espaço de entretenimento, mas como um “ecossistema cultural e humano”.
Para quem nunca foi, pode parecer só uma rave psicadélica. Eu encaro como uma espécie de retiro coletivo em forma de celebração.
Deixo-vos o After Movie da última edição e o site, caso queiram explorar um pouco melhor.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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