Olá!
O tema de hoje é pesado, tratando-se de uma das maiores atrocidades alguma vez cometidas pela humanidade. De tal forma que é um daqueles acontecimentos que me leva refletir sobre aquilo de que, nós humanos, somos capazes.
Entre 1932 e 1933, a Ucrânia viveu uma das maiores tragédias da história europeia, conhecida como Holodomor. Esta palavra ucraniana significa literalmente “matar pela fome”.
O Holodomor não foi fruto de uma catástrofe natural ou de uma crise agrícola. Tratou-se, na verdade, de uma política intencional, conduzida pelo regime soviético liderado por Estaline.
Tudo começou com a coletivização forçada das terras, que foram retiradas aos agricultores e entregues aos kolkhozes, as grandes explorações coletivas. Quem resistia era considerado inimigo do Estado e era uma de três coisas: aprisionado, deportado ou executado.
Ao mesmo tempo, Moscovo impunha quotas de cereais impossíveis de cumprir, retirando quase tudo o que era produzido. Apesar da fome generalizada no seu território, a União Soviética continuou a exportar milhões de toneladas de trigo.
Para reforçar este controlo absoluto, Estaline criou em 1932 a infame “Lei das Espiguetas”. Quem fosse apanhado a recolher apenas cinco espigas caídas podia ser condenado a 10 anos num gulag ou mesmo à morte.
Mais de 200 mil pessoas foram punidas por esta lei implacável, agravando ainda mais a crise alimentar. Mas a crueldade não ficou por aqui.
Aldeias que não cumpriam as quotas de cereais eram colocadas em “listas negras”: eram isoladas pela polícia secreta soviética (OGPU), e toda a comida era confiscada.
As lojas locais fechavam, o crédito era bloqueado, e ninguém podia entrar ou sair destas zonas. Ao mesmo tempo, as fronteiras internas foram seladas, impedindo a fuga daqueles que procuravam alimentos noutros locais.
A fome foi devastadora. As pessoas morriam lentamente de inanição, os corpos inchavam devido ao edema, e diariamente havia cadáveres nas ruas à espera de recolha.
Face a este cenário de horror, aumentaram drasticamente os casos de suicídio e infanticídio. Pais desesperados chegaram a matar os próprios filhos para evitar que estes morressem lentamente ou, no limite do desespero, para terem o que comer.
O canibalismo tornou-se tão frequente que a polícia recebia múltiplos relatos diários sobre casos ocorridos na região de Kiev. Pelo menos 2500 pessoas foram julgadas por atos de canibalismo durante o Holodomor.
Testemunhas relataram casos chocantes, como aldeias inteiras abandonadas por todos os seus moradores já mortos. Muitos sobreviventes viram carroças cheias de corpos serem transportadas, incluindo bebés ainda vivos.
Estima-se que o Holodomor tenha causado entre 3,5 e 5 milhões de mortes. Pelo menos um quarto dessas vítimas eram crianças.
Apesar de tudo isto, a tragédia foi cuidadosamente encoberta pelo regime soviético. Jornalistas estrangeiros que denunciavam a situação foram silenciados e até assassinados, como Gareth Jones.
Documentos e registos de óbitos foram destruídos para ocultar a dimensão real da catástrofe. O recenseamento de 1937, que revelava a brutal quebra populacional, foi imediatamente censurado e os seus responsáveis executados.
Atualmente, o Holodomor é reconhecido por mais de 30 países como um genocídio deliberado contra o povo ucraniano.
É, de facto, aterrador pensar naquilo de que um humano pode ser capaz…
Se quiserem aprofundar deixo-vos três sugestões: um vídeo a explicar o tema, um livro muito interessante de ficção sobre o Holodomor e ainda um livro de não ficção da inconfundível Anne Applebaum.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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