152# Como ideias impensáveis se normalizam

Lembras-te quando as mulheres não podiam votar?

Ou quando o casamento homossexual não era permitido pelo Estado?

Ou, dando um exemplo mais recente, quando não era aceitável um membro da NATO falar em anexar outro membro da NATO?

Tudo isto são ideias que já foram impensáveis, que iam fundamentalmente contra o pensamento instalado.

No entanto, felizmente para os primeiros dois casos, houve uma janela de mudança e, hoje em dia, aquilo que era impensável tornou-se normal.

Essa janela de mudança costuma ser descrita através de um conceito chamado Janela de Overton.

A Janela de Overton, que ganhou esse nome por causa de Joseph P. Overton, um analista de políticas públicas e criador do conceito nos anos 90, descreve o conjunto de ideias politicamente aceitáveis para a opinião pública num determinado momento.

Ironicamente, o conceito nasceu para mostrar aos políticos o que eles deviam ou não defender sob pena de perderem ou ganharem eleições.

Olhemos, por exemplo, para o caso do tabaco.

Quando o governo, há uns anos, tomou a decisão de que já não se podia fumar no interior dos estabelecimentos, para muitas pessoas foi uma má ideia, mas para a larga maioria não causou muita turbulência, mesmo que não fosse especialmente popular.

No entanto, imaginem esta medida nos anos 60, quando se fumava em consultórios médicos, aviões e salas de aula…

Seria inimaginável!

Isto porque, nessa altura, a Janela de Overton ainda incluía a ideia de que fumar era inofensivo, ou pelo menos socialmente aceitável, e excluía a ideia de que deveria ser restringido.

Portanto, se olharmos para os dias de hoje, a parte boa é que esta janela se move. Mas como?

De um modo geral, as ideias aceites pelo público geral tendem a alinhar com as normas sociais dominantes e com a forma como os temas são enquadrados. E, quando não existe muito espírito crítico, elas tendem a prolongar-se no tempo.

No entanto, a disrupção é sempre possível, desde que as pessoas possam ser convencidas a pensar de forma diferente.

Isto porque a Janela de Overton não nos diz se uma ideia é justa ou injusta, verdadeira ou falsa. Diz-nos apenas se, naquele momento, ela cabe dentro do que a sociedade considera discutível e aceitável.

E como é que ideias inaceitáveis, se tornam aceitáveis e comumente aceites?

Acima de tudo, tem a ver com o enquadramento (framing) dado por quem tem mais visibilidade e capacidade de influência.

A forma como quem tem mais visibilidade aborda os temas, nomeadamente os media.

Até podemos instintivamente achar que não, mas se passarmos o tempo todo a ouvir uma ideia, que à partida não concordamos, mas que parece ser a ‘normal’ e amplamente aceite por todos, acabamos por ser influenciados a pensar que ela faz sentido.

E isso pode ser bom! Basta pensar nas pessoas que antes achavam que o tabaco era inofensivo, mas que agora acreditam que ele é prejudicial para a saúde.

Mas existe sempre o outro lado da moeda: coisas inaceitáveis passarem a ser aceitáveis, como discriminar por raça ou etniaum membro da NATO achar que é aceitável anexar outro membro da NATO, etc.

Ou seja, janela move-se para a liberdade, mas também pode deslizar para o autoritarismo. Quando ouvimos discursos sobre anexações entre aliados, a janela está a ser forçada para um lugar onde a paz deixa de ser a norma.

Nunca tinha ouvido falar deste conceito da Janela de Overton, mas achei-o útil porque ajuda a tornar mais visível uma dinâmica política e social que muitas vezes passa despercebida. 

Em suma, explica que as abordagens ou ideias relativas a determinada matéria não são imutáveis e orientam a decisão política.

Para mim, o mais importante a reter é que ao longo dos tempos fomos herdando regras, conceitos e normas, que consideramos normais, muitas vezes porque nunca as questionámos verdadeiramente. Simplesmente vivemos em piloto automático.

A questão é que quem vive em piloto automático não muda o mundo…

Por isso, estudem, informem-se, discutam, lutem por aquilo em que acreditam e esforcem-se por persuadir os outros das vossas ideias, mesmo que pareçam loucos.

Lembrem-se de todos aqueles que no passado pareceram loucos a… defender o que hoje é socialmente aceite!

Só assim aquilo que hoje parece impensável pode tornar-se normal. 

E aquilo que hoje parece normal também pode, um dia, tornar-se inaceitável. 

É por isso que vale a pena prestar atenção a quem está a moldar os limites do debate e, de preferência, ser alguém que contribui para os mesmos.

Deixo-vos dois vídeos muito interessantes e curtos sobre o tema: aqui e aqui.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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