Há uns meses atrás, 5 reclusos em Paços de Ferreira tiveram ataques cardíacos no mesmo dia.
Há duas semanas atrás, um rapaz de 25 anos assassinou o colega de cela a sangue frio no Estabelecimento Prisional do Linhó.
O que é que estes dois casos têm em comum?
Correspondência. Cartas, em papel.
Não é segredo para ninguém que sempre houve droga dentro das prisões, tanto distribuída por pessoas que lá estão presas como por guardas prisionais corrompidos.
No entanto, esta nova droga, a K4, está a revolucionar, no sentido negativo, o consumo e tráfico de droga dentro das prisões.
Falamos de uma molécula produzida em laboratório para mimetizar o THC, o principal composto psicoativo da canábis, mas com uma potência muitíssimo maior.
Chega a ser 80 a 100 vezes mais potente do que a canábis, e pode provocar surtos psicóticos graves, comportamentos violentos e paragens cardiorrespiratórias.
“Tivemos um recluso a querer beijar as botas de um guarda porque estava a alucinar com isto”, disse Frederico Morais, presidente do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional.
Produzido originalmente como líquido ou óleo, o composto é aplicado em papel para ser consumido via mastigação ou fumo.
Outra forma de entrar nas prisões é através da roupa. É impregnado num tecido e depois basta ser molhado e escorrido para extrair a droga.
Mas nas prisões entra sobretudo embebida nas cartas que os reclusos recebem.
Como é que isto acontece?
A substância é um pó que pode ser dissolvido em líquido, através de acetona ou álcool. Por isso, a forma mais utilizada é borrifando esse líquido nas cartas enviadas.
E o grande constrangimento é que, por lei, os estabelecimentos prisionais não podem impedir ou analisar a correspondência dos reclusos.
Em Inglaterra, por exemplo, onde este problema surgiu já há mais tempo, a solução foi fotocopiar as cartas e entregar aos prisioneiros as fotocópias, em vez do original. Tal não é permitido em Portugal.
Talvez se estejam a perguntar porque é que decidi escrever sobre isto…
Apesar de eu acreditar que a aleatoriedade dos temas que vos trago já é incapaz de vos surpreender, hoje de manhã li uma notícia sobre isto no Expresso.
É um tema a que sou sensível porque acho que o sistema prisional e a forma como os reclusos são tratados diz muito sobre um país.
E, apesar de terem cometido crimes, muitos deles hediondos, acredito que estas pessoas merecem ser defendidas e terem dignidade durante o tempo em que cumprem o seu castigo.
E quando olho para outros sítios onde o abuso de drogas sintéticas tem efeitos devastadores, como na Califórnia ou, aqui mais perto, em Frankfurt, só desejo que nunca cheguemos sequer perto desse ponto no nosso país.
Por isso, acredito que trazer consciencialização e conhecimento sobre estes temas, ajuda a que eles ganhem visibilidade e possam ser mais rapidamente resolvidos.
Se quiserem conhecer um pouco mais sobre este mundo, deixo-vos 2 vídeos: aqui e aqui.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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