Ultimamente, não me tem apetecido escrever.
Os mais atentos e antigos subscritores terão reparado que na semana passada, pela primeira vez em mais de um ano, não enviei o email semanal que estão habituados a receber.
Nas últimas duas semanas, cada vez que me sentava ao computador para escrever algo, sentia uma profunda desinspiração para meter pensamentos em palavras.
Também nas últimas semanas tenho lido bastante – acabei o Algoritmocracia e Liberalismo – A ideia que mudou o mundo, assim como comecei o Determined e o Vago.
Assim sendo, depois de consumir tanta informação, como é que não tinha inspiração para escrever?
Disse a mim próprio que estava numa fase de de maior interiorização, e não tanto de exteriorizar aquilo que tenho vindo a aprender.
No entanto, há uns dias estava a ler um artigo na substack do Jared Dillan, em que ele falava sobre a diferença entre o esforço mental e o esforço físico.
Nele, ele argumentava que os grandes feitos a nível físico, como correr uma maratona, são bastante mais fáceis que os de nível mental, como escrever um livro.
Isto é algo com que concordo integralmente, e que é facilmente comprovável, mas sobre o qual nunca tinha dado o devido pensamento.
Para fazer algo desafiante a nível físico, precisamos essencialmente de aprender a fazê-lo e depois repeti-lo à exaustão. A parte mais determinante é a força de vontade.
No entanto, usar o cérebro é muito mais difícil. Pensar profundamente exige muito e não é algo que possamos apenas repetir à exaustão, como dar corridas, por exemplo.
Quando corremos ou levantamos pesos, o corpo acaba por entrar num certo piloto automático.
Claro que dói e exige sacrifício. Mas a mecânica está lá.
Aliás, a ciência do desporto tem uma teoria interessante chamada “Teoria do Governador Central“, que defende que quando sentimos que vamos colapsar de cansaço numa corrida, os nossos músculos ainda têm muita reserva de energia.
Ou seja, é apenas o cérebro a enviar sinais de dor e fadiga para nos proteger de ir longe demais.
Paradoxalmente, no esforço físico a mente atua como um travão. A nossa tarefa é “apenas” convencê-la a libertar esse travão.
Mas no esforço puramente mental – como escrever, criar ou estruturar um raciocínio complexo a partir do nada – não há piloto automático.
Pelo contrário. Estamos a forçar a máquina na sua engrenagem mais pesada.
E há uma razão matemática para isto nos deixar tão destruídos…
Apesar de o nosso cérebro representar apenas cerca de 2% do peso do nosso corpo, ele consome 20% da nossa energia em repouso. Pensar profundamente, decidir e processar livros densos consome glicose real.
Percebi, então, que a “desinspiração” que senti nestas últimas duas semanas podia não ser apenas uma fase mística de interiorização.
Talvez fosse o meu cérebro a avisar-me que o depósito de combustível estava na reserva.
O problema é que lidamos muito mal com o cansaço mental. Temos a ilusão de que “descansar” significa parar o corpo.
Quando estamos mentalmente esgotados, a nossa tendência é atirarmo-nos para o sofá, talvez a ler mais, a ver um filme ou a fazer scroll.
Acreditamos que, por estarmos fisicamente imóveis, estamos a descansar. Mas para o cérebro, isso é apenas mais consumo de informação. É continuar a acelerar o motor.
A verdadeira cura para o excesso de esforço mental é, paradoxalmente, o esforço físico mecânico.
Quando vamos dar essa tal corrida (onde não precisamos de pensar), ou até quando lavamos a loiça, arrumamos a casa ou levantamos ferro, o nosso cérebro ativa algo chamado Default Mode Network.
É neste estado de movimento em piloto automático que a mente finalmente consegue vaguear e relaxar.
É aqui que ela arruma as ideias dos livros que lemos, consolida memórias e, mais importante, recarrega a energia para voltar a criar.
Em retrospetiva, talvez a principal razão por que não escrevi na última semana foi por estar exausto de pensar.
A partir de agora, o meu foco será respeitar mais esta balança para que vos possa escrever coisas com mais qualidade.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

Leave a Reply