147# Faz sentido ter sondagens pré-eleitorais?

Imagine, caro leitor, que existe uma eleição para um cargo político entre apenas dois candidatos, a acontecer daqui dois dias.

O leitor está bastante inclinado para votar num dos candidatos.

No entanto, hoje, dois dias antes da eleição, saem várias sondagens que apontam para o mesmo resultado: o candidato em que você pretende votar conta com 95% das intenções de voto.

Tenho uma pergunta para si: depois de ver esta sondagem, é mais ou menos provável que se dirija efetivamente à urna para votar no candidato que prefere?

O senso comum responde sem grandes dificuldades. Quando sentimos que o resultado está fechado, temos muito menos propensão a deslocar-nos à urna de voto.

Tal como, se o Benfica jogar contra o Porto num jogo que decide o campeonato, vai haver muito mais gente propensa a sair de casa para ver o jogo, do que se for um amigável entre o Benfica e o Tondela, em que nada está em jogo.

Foi, em parte, isto que aconteceu na primeira eleição de Carlos Moedas contra Fernando Medina, para a Câmara Municipal de Lisboa.

Algumas sondagens chegaram a dar Carlos Moedas com menos 20% dos votos de Fernando Medina.

É, então, legítimo acreditar que houve pessoas (só não se sabe quantas) que, na altura, votariam em Fernando Medina, mas que nem se deram ao trabalho de se dirigir às mesas de votos, acreditando que o resultado estava fechado.

Uma das coisas mais difíceis de se fazer e rara de se encontrar é desafiar diretamente as normas societais moldadas e aceites há muito tempo.

Mesmo quando, depois de se pensar um bocado, elas não fazem muito sentido.

É isso que tento fazer neste texto: desafiar, não só o propósito, como a legitimidade das sondagens pré-eleitorais.

Como comecei por explicar, as sondagens podem claramente incentivar ou desincentivar os eleitores a dirigirem-se às mesas de voto, dependendo da proximidade percentual entre os candidatos.

Mas isso é apenas uma das desvantagens.

Outra em que podemos concordar é que muitos eleitores decidem em função daquilo em que acreditam ser o “voto útil”.

O “voto útil” é a ação de votar num candidato que, apesar de não ser o nosso favorito, tem, segundo as sondagens, mais condições para vencer as eleições do que aquele preferimos, e é mais próximo de nós ideologicamente do que o outro candidato que também está perto de ganhar.

Tivemos um exemplo paradigmático na primeira volta das presidenciais, dia 18 de Janeiro…

Uma grande parte da esquerda concentrou o seu voto em António José Seguro e, entre ela, certamente que muitas das pessoas que votaram nele teriam preferido Catarina Martins, António Filipe ou Jorge Pinto.

Ou seja, isto significa que as sondagens influenciaram diretamente o voto de milhares de portugueses, levando-os a escolherem um candidato que não era o seu preferido.

Fará sentido que as empresas de sondagens tenham o poder de manipular assim um resultado eleitoral?

Existe ainda outro efeito perverso que as sondagens pré-eleitorais, a meu ver, têm.

O seus resultados dizem aos políticos aquilo que estão a ‘fazer bem’ e aquilo que estão a ‘fazer mal’.

Imaginemos uma sondagem que nos diz que a maior preocupação do povo português é, naquele momento, a habitação.

Na mesma sondagem, há um político que aparece mal classificado, e que raramente aborda o tema da habitação.

Ora, ele não abordava o tema da habitação antes, mas é provável que agora o passe a fazer mais, dada a importância que os eleitores lhe dão.

Existem várias formas de encarar essa situação. Alguns dirão que isso é uma externalidade positiva, que alinha melhor as preocupações dos políticos com a dos cidadãos.

Eu tenho uma visão diferente: um político que não queria saber de um tema em plena campanha, provavelmente porque o mesmo não lhe é caro, e passa a fazê-lo depois de ver uma sondagem, é um oportunista cujas convicções mudam consoante lhe for mais favorável eleitoralmente.

Portugal (e qualquer outro país) precisa de líderes com convicções. Não de cata-ventos que dizem aquilo que lhes der mais votos.

Assim, á exceção dos políticos, que através das sondagens adequam o seu comportamento àquilo que acreditam que lhes fará subir a votação, e das empresas de sondagens, que não só fazem bastante dinheiro como têm o poder de condicionar o sentido de voto dos eleitores, não vejo como é que as sondagens pré-eleitorais podem beneficiar a sociedade no geral.

Alguns dirão ainda que cada um é livre de decidir por si e que só é influenciado pelas sondagens quem quer.

Acho bastante difícil de negar que com sondagens a abrir telejornais dia sim dia sim antes da eleições, é impossível que as pessoas não sejam influenciadas por elas, mesmo que inconscientemente.

Agora imaginem que não existiam este tipo de sondagens…

Do primeiro ao último dia de campanha, não se sabia quem tinha mais ou menos intenções de voto. Cada pessoa votava, pura e simplesmente, no candidato com que mais se identificava.

Teria as suas partes negativas, como tudo na vida, mas seria sempre melhor do que votar sob um sistema que nos pode condicionar a não votar naquela que é realmente a nossa verdadeira vontade.

Hoje a newsletter foi mais em estilo ensaio do que informativo, ao contrário daquilo que é costume.

Tinha esta ideia aqui presa e precisava de exteriorizá-la.

E tu? O que achas das sondagens pré-eleitorais?

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

Sua assinatura não pôde ser validada.
Obrigado! Certifica-te que recebes um email de boas-vindas nos próximos 5 minutos. Caso não o encontres, verifica também no spam. Se não tiver chegado, por favor contacta-me para fnascimento@aprendealgoantesdedormir.pt Para garantires que recebes todas as newsletters, podes marcar o email de boas-vindas como importante na tua caixa de correio. ~A partir de agora, todas as semanas vais aprender algo antes de dormir!

Torna-te naquela pessoa que tem sempre algo interessante para partilhar.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *