146# Vladimir, o revolucionário mundano

Na memória coletiva, Vladimir Ilyich Ulyanov é quase sempre lembrado como uma estátua de bronze, fria e distante, com o braço esticado a apontar para o futuro e a boina na outra mão.

Normalmente, olhamos para ele como o político revolucionário que fundou a União Soviética. 

Uns amam-no, outros odeiam-no.

Podemos sem receio dizer que é uma das figuras mais polarizadoras do nosso tempo.

Mas, hoje, decidi mergulhar na biografia de Lenine, o homem de carne e osso, e não a figura idealizada e abstrata por tantos falada.

E descobri que, por trás da lenda revolucionária, existia alguém com detalhes surpreendentemente mundanos.

Em primeiro lugar, não nasceu radical! 

Nascido em 1870, em Simbirsk, no então Império Russo, cresceu numa família de classe média, filho de um inspetor de escolas, numa casa cheia de livros e música.

O momento de rutura, aquele que o mudaria para sempre, assim como a toda a história do século XX, foi pessoal e trágico…

Quando Lenine tinha 17 anos, o seu irmão mais velho, Aleksandr, foi enforcado por conspirar para matar o Czar.

A execução do irmão transformou a sua mágoa pessoal em ódio político, radicalizando o jovem Vladimir para sempre.

Mas o que mais me fascinou foram os contrastes da sua personalidade.

Apesar de ser o arquiteto de uma revolução sangrenta, Lenine era um homem de hábitos quase ascéticos…

Não fumava, raramente bebia e abominava o luxo, preferindo viver em quartos alugados baratos durante os seus longos anos de exílio na Europa.

Curiosamente, existem relatos e fotos dele a brincar com gatos, mesmo durante reuniões tensas do Partido Bolchevique.

Era também um jogador de xadrez obsessivo e um “workaholic” que sofria de insónias terríveis e dores de cabeça incapacitantes.

É impossível falar dele sem falar do ano que mudou tudo: 1917.

Com a Rússia destroçada pela Primeira Guerra Mundial e o Czar deposto, Lenine agarrou a oportunidade pela qual tanto tempo esperou.

Exilado na Suíça, precisava de voltar à Rússia a qualquer custo.

Numa jogada de mestre (e de risco), negociou com a Alemanha – que era inimiga da Rússia na guerra e concordou enviá-lo com o intuito de criar mais instabilidade no país – para atravessar a Europa num comboio blindado.

Quando chegou à Rússia, a sua contribuição decisiva não foi apenas liderar, mas sim radicalizar o momento.

Enquanto outros socialistas queriam calma, Lenine desembarcou com um slogan simples: “Paz, Pão e Terra”.

Ele percebeu que o poder não estava nos palácios, mas na rua, junto dos soldados cansados e dos camponeses esfomeados.

Foi essa leitura política, fria e calculista, que permitiu aos Bolcheviques tomarem o poder em Outubro de 1917, num golpe cirúrgico.

Apesar desta visão estratégica, o seu legado é, até para os seus admiradores, inegavelmente pesado.

Para modernizar uma Rússia feudal e transformá-la numa potência industrial, Lenine acreditava que os fins justificavam quaisquer meios.

Isso levou à criação da polícia secreta, a Cheka, e ao “Terror Vermelho”, eliminando qualquer oposição com uma brutalidade sistémica.

Sendo verdade que ele construiu um império, o fim da sua vida tem uma ironia cruel…

Após sofrer vários derrames que o deixaram mudo e paralisado numa cadeira de rodas, Lenine viu com clareza o monstro burocrático que tinha criado.

Tentou desesperadamente ditar um testamento político a exigir a remoção de Estaline, alertando para a suas “tendências brutais” e fome de poder, que certeiramente se viriam a revelar.

Mas já era tarde demais. Foi ignorado e isolado pelo próprio sistema que desenhou.

No meio de tudo isto, é impossível deixar de refletir sobre como o trauma de um jovem de 17 anos que, ao perder o irmão de uma forma tão desumana, acabou por redesenhar o mapa-mundo.

Mostra-nos que a História, muitas vezes vista como uma força inevitável, é na verdade moldada pelas paixões e dores de indivíduos concretos.

E é isso que torna o estudo do passado algo tão inquietante, fascinante e surpreendente.

Para perceberem melhor a história deste senhor, façam um favor a vocês mesmos e invistam 6 minutos da vossa vida e ver isto.

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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