Dezembro de 1914 não devia ter sido assim.
Quando os soldados marcharam no verão, a promessa era clara: “A guerra acaba antes do Natal”.
Mas o Natal chegou e a única coisa que encontraram foi o frio, a chuva incessante e a lama da Flandres, que engolia botas e esperanças com a mesma facilidade.
A “Corrida para o Mar” tinha terminado num impasse sangrento.
De um lado, os Aliados, do outro, os Alemães.
Separados por vezes por apenas 30 ou 40 metros de “Terra de Ninguém” (no man’s land), um terreno baldio repleto de arame farpado e cadáveres por recolher.
O Papa Bento XV tinha implorado aos líderes mundiais por uma trégua oficial para celebrar a data, mas a resposta dos generais foi um “não” rotundo.
A guerra não podia parar.
No entanto, os homens nas trincheiras tinham outra ideia.
Tudo começou na véspera de Natal, perto de Ypres, na Bélgica.
Os relatos dizem que o tempo mudou de repente: a chuva parou e o solo congelou, cobrindo o horror da lama com uma camada branca e limpa.
Foi então que os sentinelas britânicos viram algo estranho.
Pequenas luzes começaram a aparecer ao longo da linha alemã. Eram velas. E, logo a seguir, pequenas árvores de Natal (Tannenbäume) foram erguidas sobre os parapeitos das trincheiras inimigas.
Depois, veio o som. Não o da artilharia, mas vozes a cantar “Stille Nacht“.
Do lado britânico, a desconfiança inicial cedeu lugar à curiosidade.
Em vez de dispararem, começaram a aplaudir e responderam com as suas próprias canções.
O que aconteceu nas horas seguintes desafia qualquer lógica militar.
Soldados de ambos os lados começaram a gritar convites através do escuro: “Come over here!”
Na manhã de Natal, a neblina levantou-se para revelar uma cena surreal.
Figuras cinzentas e caquis saíram das suas trincheiras (literalmente), de mãos no ar, desarmadas, caminhando para o centro da Terra de Ninguém.
O silêncio tenso foi quebrado por apertos de mão.
Ali, no meio do campo de batalha, inimigos mortais trocaram o pouco que tinham.
Os alemães ofereciam salsichas e charutos; os britânicos retribuíam com pudim de ameixa e tabaco. Riram-se, tentaram comunicar por gestos e mostraram fotografias desgastadas das famílias que os esperavam em casa.
Descobriram que o “monstro” do outro lado era apenas um homem, provavelmente um padeiro ou um carteiro antes de vestir a farda, tão farto daquela guerra quanto eles.
E houve ainda o futebol.
Não foi o jogo organizado que a lenda muitas vezes pinta, mas sim uma série de ‘peladinhas’ caóticas e improvisadas.
Alguém apareceu com uma bola (ou uma lata de conserva, nalguns casos) e dezenas de homens correram e escorregaram no gelo, felizes por, durante alguns minutos, estarem a chutar uma bola em vez de granadas.
Mas este relato tem um lado sombrio que muitas vezes esquecemos…
A trégua serviu também para um dever sagrado: enterrar os mortos.
Soldados de ambos os lados ajudaram-se mutuamente a cavar sepulturas na terra dura para os camaradas que tinham caído na Terra de Ninguém semanas antes.
Em alguns setores, oficiais britânicos e alemães leram salmos juntos sobre as campas improvisadas.
A magia durou pouco.
O Alto Comando, horrorizado com as notícias de “confraternização”, emitiu ordens furiosas.
Ameaçaram-se tribunais marciais.
A rotação de tropas foi acelerada para que ninguém criasse laços com o inimigo.
Nos anos seguintes, a artilharia foi ordenada a bombardear as linhas na véspera de Natal para garantir que o silêncio nunca mais se instalasse.
A guerra recomeçou, mais cruel e mecanizada do que antes, arrastando-se por mais 4 anos.
Mas aqueles homens guardaram para sempre o segredo daquele Natal de 1914…
A prova de que, mesmo nas circunstâncias mais desumanas, a humanidade consegue, nem que seja por um dia, encontrar uma fresta para respirar.
Vejam este vídeo magnifico sobre esta trégua natalícia.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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