Imagina o cenário.
É a noite anterior ao dia das bruxas, 30 de outubro de 1938.
Vives nos EUA, estás sentado na tua sala de estar, o único lugar quente da casa, a olhar para aquela caixa de madeira que emite uma luz alaranjada: o rádio.
Nesta altura ainda não havia televisões nos lares de 99% das famílias.
Lá fora, a Grande Depressão ainda assombra a América e os ventos de uma nova guerra sopram da Europa.
Mas ali, naquele momento, só queres relaxar.
Está a dar música de dança, uma orquestra toca Ramón Raquello and his Orchestra a partir de um hotel em Nova Iorque.
Tudo parece normal.
De repente, a música é cortada.
Silêncio.
Uma voz séria e urgente dispara:
“Senhoras e senhores, interrompemos o nosso programa de música de dança para lhes trazer um boletim especial da Intercontinental Radio News. Às vinte para as oito, o Professor Farrell do Observatório de Mount Jennings, Chicago, relatou a observação de várias explosões de gás incandescente, ocorrendo em intervalos regulares no planeta Marte.”
Tu franzes a testa, mas continuas a ouvir. A música volta.
Minutos depois, é cortada novamente. Desta vez, o tom é mais grave…
É relatado que um objeto enorme e flamejante caiu numa quinta em Grovers Mill, Nova Jérsia.
Dizem que não é um meteorito.
Algo está a sair lá de dentro.
Há raios de calor.
Há gritos.
A polícia está a ser dizimada.
De repente, segundo a BBC, “toda a gente começou a conduzir a 200 km/h em direção às montanhas”.
O dia em que a Terra (quase) parou
O que acabaste de ler acima foi, para milhões de pessoas, a realidade absoluta durante cerca de uma hora.
Mas, na verdade, era apenas um jovem de 23 anos, com uma voz de barítono e uma audácia sem limites, a brincar com a perceção da realidade.
O seu nome era Orson Welles.
Em 1938, Orson encenou uma invasão alienígena na rádio relatando passagens de um livro de ficção como se fosse um noticiário urgente e real.
O realismo foi tão impactante que ele convenceu milhares de ouvintes de que a Terra estava mesmo sob ataque.
Esta semana, decidi recordar esta histórica emissão, que ficou conhecida como “A Guerra dos Mundos”, devido ao nome da peça encenada, porque ela ensina-nos uma lição importantíssima que, curiosamente, nunca foi tão atual.
Até àquela noite, a rádio era sagrada.
Se uma “voz de noticiário” dizia algo, então era verdade.
Welles, então locutor de rádio na CBS, não se limitou a adaptar o livro de H.G. Wells.
Ele “hackeou” o formato.
Ele usou a linguagem de “Breaking News” – boletins informativos, cortes abruptos, repórteres ofegantes no terreno – para contar uma história de ficção científica.
Ele percebeu, antes de toda a gente, que o meio é a mensagem.
As pessoas não acreditaram numa invasão alienígena por serem ingénuas.
Acreditaram porque confiavam na autoridade da rádio.
O Mito do Pânico
Desta história surgiu um mito que milhares de pessoas entraram em pânico…
É verdade que houve gente a fugir de casa com toalhas molhadas na cara para se proteger do “gás tóxico”? Sim.
Houve gente a disparar contra caixas de água a pensar que eram naves? Sim.
Mas a história do “pânico nacional” foi, ironicamente, a primeira grande fake news de que há registo.
Os jornais da época, que estavam a perder publicidade para a rádio, exageraram enormemente o caos nas suas manchetes no dia seguinte para pintar a rádio como um meio “irresponsável e perigoso”.
Por que é que isto importa hoje?
Vivemos na era digital, onde um tweet, um vídeo deepfake ou uma notícia partilhada sem verificação pode causar o mesmo efeito que a voz de Orson Welles em 1938.
Este episódio da “Guerra dos Mundos” lembra-nos de duas coisas essenciais:
- O poder imenso de uma boa narrativa (para o bem e para o mal).
- A necessidade eterna de questionarmos o que ouvimos, mesmo que venha num formato em que costumamos confiar ou de uma figura à qual atribuímos autoridade.
No final da emissão, Welles saiu da personagem e disse aos ouvintes que aquilo não passava de “o equivalente radiofónico de nos vestirmos com lençóis para assustar alguém no Halloween”.
Como deves imaginar, muitas pessoas não chegaram a essa parte…
E o mundo nunca mais ouviu rádio da mesma maneira.
Por hoje é tudo.
Vê em baixo o vídeo que lancei esta semana sobre IA.
Até quarta,
Francisco

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