Olá!
Uma das coisas mais difíceis, mas também mais indispensáveis, para percebermos o mundo que nos rodeia é conseguirmos meter-nos na pele dos outros, mesmo quando eles pensam de uma forma que nos parece inconcebível.
Posto isto, hoje decidi investigar uma comunidade de pessoas que pensam de uma forma que está nos antípodas da minha.
Esta é uma comunidade que acredita que nasceu com uma genética inferior e que isso faz com que não consigam ter os relacionamentos, sexuais e afetivos, que desejam.
Ficaram conhecidos como ‘Incels‘, vindo do inglês Involuntary Celibate – Celibatário Involuntário.
Ou seja, à letra, são pessoas que não fazem sexo porque não conseguem encontrar alguém que queira.
Apesar de já existirem há mais tempo, o termo ‘Incel’ foi cunhado, em 1997, por uma jovem canadiana chamada Alana.
Ela criou um site para oferecer apoio a pessoas solitárias ou que se sentiam rejeitadas.
Chamava-se projeto de celibato involuntário da Alana (Alana’s Involuntary Celibacy Project) e incentivava outros jovens a compartilhar as suas experiências de dificuldade em estabelecer relações afetivas.
Quase 30 anos depois, muita coisa mudou…
Comunidades compostas essencialmente por homens foram criadas em plataforma online, nomeadamente no reddit, facebook e 4chan.
Ao início, era como que um espaço de autovitimização.
Homens que tinham dificuldades em atrair ou que tinham tido más experiências com mulheres reportavam as suas situações e comentavam as dos outros.
Alguns termos popularizaram-se nesta comunidade, como os “Chad”, homens musculados, bonitos e com dinheiro, que ‘arrebanhavam’ todas as mulheres bonitas.
E as “Stacys”, o nome que designava mulheres bonitas e charmosa, consideradas inalcançáveis para os membros destes grupos.
Com o passar do tempo, a violência aumentou gradualmente.
A culpabilização das mulheres e da “sociedade” começou a ganhar espaço e os apelos à violência tenderam a vulgarizar-se.
Em agosto de 2014, um incel de 22 anos matou 5 pessoas num ataque em Inglaterra.
Antes de cometer o crime, gravou um vídeo a dizer que cometeria os assassinatos porque as mulheres não queriam fazer sexo com ele.
Talvez se estejam a perguntar como é que da inaptidão relacional surge a carnificina…
Nestes fóruns, vários membros tendem a incitar este tipo de comportamentos, algo particularmente eficaz em jovens vulneráveis.
Existem posts e interações, que vieram entretanto a público, a mostrar como após utilizadores escreverem que estão a pensar tirar a sua própria vida, há quem lá vá interagir pedindo que “não se vão abaixo sozinhos”.
Por outras palavras, estão a encorajá-los a tirarem a vida de outras pessoas antes de tirarem a sua própria.
E casos são o que não faltam: tiroteios e atropelamentos, para vos dar alguns exemplos (houve mais).
Para terem uma noção, o Canadá e o Reino Unido passaram a classificar a violência incel sob a alçada do terrorismo ideológico.
Se se estiverem a perguntar que tipo de pessoas fazem parte destas comunidades, um estudo da Universidade de Swansea dá-nos algumas pistas (embora não possa ser lido como verdade absoluta):
- Pessoas com má saúde mental (37% dizem ter pensamentos suicidas diários);
- Cerca de um terço tem características autistas (contra 1% da população geral);
- 86% referem já ter sofrido bullying (contra 33% da população geral);
- Cerca de metade diz sentir solidão;
- Embora normalmente seja associado à extrema direita, a maioria diz-se de centro/centro-esquerda;
- Cerca de 60% são brancos;
- A grande maior parte não estuda nem trabalha.
No fim, quando penso em tudo isto, lembro-me de uma frase do Warren Buffet que anda sempre comigo: “tu és a média das 5 pessoas que te são mais próximas”.
Posta neste contexto, significa que se aquilo que vemos diariamente são utilizadores de uma comunidade a queixar-se, vitimizar-se e culpar as mulheres pela sua inaptidão, então é normal que acabemos a pensar assim também.
Afinal de contas, aquelas pessoas são as únicas que nos entendem e que passam pelo mesmo que elas.
Como referi ao início, este tema choca de frente com a minha forma de ver o mundo.
Eu sou encarecidamente contra a vitimização.
E, apesar de não esquecer os handicaps, acho que nós, principalmente no mundo desenvolvido, temos todas as ferramentas para nos superarmos e nos tornarmos bons em algo antes não éramos.
Ninguém escolhe a genética com que nasce ou se é ou não um extrovertido inato.
No entanto, todos podemos estudar e pôr em prática estratégias para nos tornarmos mais aptos socialmente – ou noutra coisa qualquer.
Apesar disso, eu sei que só penso assim devido às pessoas que foram fazendo parte do meu caminho e dos estímulos que me foram dados.
Se tivesse nascido e crescido noutro ambiente, talvez pudesse ser um incel hoje em dia, quem sabe…
Por isso, eu não posso julgar estas pessoas, por mais que elas pensem e hajam de uma forma que me é inimaginável.
O mundo é de facto complexo…
Mas é também por isso que esta newsletter existe.
Para o descomplicar!
E, caso queiram saber mais sobre isto, deixo-vos duas fontes interessantes para o fazerem: um artigo em inglês, um artigo em português e um vídeo.
Deixo-vos ainda o repto: esta newsletter tem um público que muitas vezes não está nas redes, pelo que nada como o passa a palavra – partilhem com os vossos amigos e familiares, e expliquem-lhes que subscrever a newsletter está a 2 cliques de distância em www.aprendealgoantesdedormir.pt.
Agradeço-vos muito!
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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