Boa noite a todos!
Para aqueles que achavam que esta semana tinha falhado o envio da newsletter, nada têm que temer. Apenas atrasei um dia por causa do ano novo!
Em 2025 tive muitas aprendizagens. Certamente mais do que consigo racionalizar.
Foi, sem dúvida sombra de dúvida, o ano em que mais coisas fiz na vida.
Mas se há uma aprendizagem que eu tirei deste ano é que não podemos ir a todas.
Quando se é novo tem-se a ideia de que, por serem os anos mais enérgicos da nossa curta passagem por este planeta, devemos tentar fazer o máximo número de coisas possíveis…
Só que, como diz a sabedoria popular, quando queremos fazer um pouco de tudo, acabamos por não fazer nada extraordinariamente. O foco esvai-se. Assim como os resultados.
Foi por isso, talvez, que tantas vezes me questionei sobre este projeto.
Será que o esforço vale a pena?
Será que as horas sem fim de pesquisa e escrita, a adicionar ao dinheiro gasto valeram mesmo a pena?
Será que existem assim tantos leitores silenciosos satisfeitos a quem esta newsletter aporta valor?
Apesar de tudo, acho que sim. Cada palavra que escrevi e vídeo que filmei e editei valeu a pena.
Até, sob um ponto de vista egoísta, porque eu próprio acabei por aprender bastante.
Foi também uma forma de me obrigar a ser mais disciplinado, principalmente nos momentos em que tudo o que queria era desligar o computador e não teclar nem por mais um segundo.
Por isso, a ti que continuas a acompanhar-me e a aprender algo antes de dormir, muito obrigado!
Vamos, então, ao título: porque 2026 me assusta?
1) Redes Sociais
Acreditem: eu odeio ser o pessimista na sala, mas, na minha cabeça, tudo aponta para que não estejamos a caminhar no melhor sentido, não obstante o progresso tecnológico incrível que temos vindo a ter.
Talvez por, ao longo de 2025, ter estudado tanto os vieses mentais que temos, o que mais me assusta são as redes sociais.
Com o surgimento e domínio do TikTok, e do seu algoritmo absolutamente inédito e inigualável até agora, as diferentes redes, incluindo o Instagram, o X e o Facebook, estão a dar o tudo por tudo para reterem a atenção e o tempo de ecrã dos seus utilizadores, muitos deles que passaram a usar primariamente o rival chinês entretanto.
Não sendo uma novidade que os conteúdos que neurologicamente mais nos captam a atenção e nos agarram aos ecrãs são os que nos enraivecem, indignam e confirmam as nossas crenças, é tenebroso que estejamos voluntariamente a expor-nos durante horas, diariamente, a conteúdo milimetricamente escolhido por um algoritmo, construído por meia dúzia de humanos, com o objetivo de nos fixar o máximo de tempo possível.
E se isso já tem vindo a ser assim nos anos anteriores, com o aumento da competição e do desenvolvimento da IA, não vejo como tal possa vir a abrandar.
E isto tem 2 consequências maiores, que são faces da mesma moeda: uma maior radicalização de todos nós e um quebrar de laços proveniente da ausência da empatia.
Para além disso, ainda existe uma outra consequência, mais invisível, mas que nos atinge diretamente: o conteúdo moderado e que nos pode ensinar alguma coisa, mesmo que mais conceptual e menos prática, perde cada vez mais o seu lugar.
Trocado por miúdos, isto significa que, no que toca a aprender, será cada vez mais provável que o algoritmo nos mostre truques para aprender a cortar cebolas sem esforço, em vez de vídeos que nos expliquem, por exemplo, modelos mentais que nos levam a comportar de uma certa forma.
E porque é que isto acontece? É simples…
Nós conseguimos pôr em prática os truques da cebola imediatamente, mas entender um modelo mental, pensar sobre ele, perceber como ele nos influencia efetivamente e alterar comportamentos de acordo com isso dá muito mais trabalho e os resultados não aparecem logo.
No entanto, perceber um modelo mental que nos bloqueia ou leva a agir de uma forma que vai contra os nossos interesses é, a longo prazo, muitíssimo mais relevante e útil.
É muito importante percebermos isso.
2) Gap geracional
A velocidade absurda com que a tecnologia tem vindo a evoluir faz com que exista um gap de paradigma cada vez maior entre gerações, a todos os níveis.
Há umas semanas, a propósito do pacote laboral e da greve geral, lia um texto de opinião do diretor do Expresso, que refletia na mouche este gap.
Basicamente, a ideia é de que existe uma velha e uma nova economia.
A velha economia, composta pelas gerações mais velhas, agarradas à segurança, estabilidade e progresso paulatino, que era tudo aquilo que se ambicionava antigamente.
E a nova economia, composta por gerações mais novas (onde me incluo), que se estão a borrifar para a segurança, estando realmente importados em ter flexibilidade laboral e altos rendimentos líquidos.
Porque é que isto choca brutalmente?
Basta pensar que enquanto uns lutam para tornar mais difícil, por exemplo, despedir trabalhadores, os outros levam por tabela, porque esse ‘direito’ pelo qual eles lutam, vai automaticamente diminuir a nova contratação com salários altos (nenhuma empresa vai dar um salário alto a alguém que sabe que não vai poder despedir no futuro, se precisar de o fazer).
Ora, apesar de provavelmente o ponto rebuçado estar algures entre estas duas visões, este hiato de mentalidade só tem tendência a alargar.
Isso, numa sociedade polarizada onde as pontes tendem a ser cada vez mais destruídas e menos construídas, tem tudo para dar errado.
Em suma, ter uma sociedade em que existem, em idade de trabalho, dois grandes grupos que olham para a vida e para o desenvolvimento de duas formas quase diametralmente opostas vai criar desafios que não serão facilmente ultrapassáveis.
3) Facilitismo
Como alguém que acredita que tempos difíceis criam pessoas resilientes e tempos fáceis fazem as pessoas ‘moles’, é absolutamente evidente que caminhamos numa direção em que qualquer dia as pessoas deixam sequer de pensar.
Já pensaram que, hoje em dia, para pedir comida para casa, encontrar um parceiro sexual ou comprar uma viagem para o outro lado do mundo, basta meia dúzia de cliques?
Sendo alguém eternamente grato pelo avanço da tecnologia que me permite não morrer de causas evitáveis, trabalhar de qualquer lugar ou ir a sítios que de outra forma nunca poderia ter ido, acho que é crucial nós fazermos um esforço para não cairmos no erro de deixarmos de nos questionar acerca do mundo que nos rodeia.
Principalmente, puxarmos cada vez mais pelos nossos limites autonomamente, já que a sociedade caminha no sentido de nos facilitar a vida a cada segundo que passa.
E, como em cada crise há uma oportunidade, enquanto a sociedade se vai ‘zombieficando’, aproveitem para estar cada vez mais despertos para as oportunidades à vossa volta. Elas existem em abundância e só exigem coragem e estofo!
4) Desigualdade
Embora, na minha opinião, o capitalismo seja, tal como a democracia, o pior sistema a seguir a todos os outros (ou seja, o melhor!), ele acarreta consigo o problema da desigualdade.
Os dados são claríssimos: o capitalismo faz toda a gente mais rica, mas aumenta o fosso entre os mais ricos e os mais pobres.
A globalização veio acentuar isto ainda mais, porque tirou poder negocial aos mais pobres, que se se recusarem a fazer um trabalho por uma quantia de dinheiro que consideram insuficiente, existirá quase sempre alguém, geralmente de um país mais pobre, que o fará de bom grado.
Ora, isto significa aumento do poder negocial dos donos e gestores das empresas.
E por mais que queiramos criar políticas para o evitar, elas serão quase sempre inócuas, devido à capacidade e facilidade de mobilização geográfica de que dispõem as empresas.
Se a este desafio de perda de poder negocial dos trabalhadores, adicionarmos o advento da Inteligência Artificial, então estamos completamente destinados a um fosso exorbitante entre a riqueza e a pobreza.
Se por um lado, há uma parte da população que ‘surfa a onda’ da IA e a aproveita para aumentar a produtividade e, logo, os rendimentos, há uma maioria da população que perderá o seu trabalho.
Talvez isto pareça já bastante futurista. Infelizmente, não é.
Pode não ser para 2026, mas já não falta assim tanto para uma grande parte da população ser substituída. Principalmente a classe média e a classe baixa. Aqueles que eu chamo de executantes.
Há muito pouca coisa que a IA não será capaz de fazer. Restará espaço para os decisores.
E não, não são só os trabalhos intelectuais. A progressão da robótica tem sido galopante, principalmente na China, e dentro de alguns anos dar-se-á a extinção, por exemplo, das ‘senhoras das limpezas’.
Todos teremos robôs em casa para lavar a loiça ou engomar a roupa.
Todos… como que diz: aqueles que conseguirem pagar esse conforto, claro.
E, sim, é óbvio que tudo isto não acontecerá em 2026, mas será mais um ano a caminhar nessa direção e haverá mais gente a perder do que a ganhar – é esta a minha aposta!
Espero que, apesar do meu pessimismo, tenham gostado desta newsletter um pouco diferente do habitual e que vos tenha posto a pensar.
É para isso que ela serve 😉
Desejo-vos um 2026 cheio de aprendizagens e experiências novas.
Afinal de contas, é isso que nos enriquece.
Até quarta,
Francisco

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