Olá!
Hoje decidi investigar e escrever-vos sobre aquela que é normalmente referida como a profissão mais antiga do mundo.
Mas será que realmente o é?
Não há consenso histórico de que a prostituição seja mesmo a profissão mais antiga.
O que faz sentido. Como é que alguém o poderia provar?
Essa frase famosa é muitas vezes atribuída a Rudyard Kipling, no seu conto On the City Wall, mas não há evidência confiável que a confirme. Trata-se mais de uma metáfora do que de um facto arqueológico.
Não obstante, de facto, há registos muito antigos.
Na Mesopotâmia, em cerca de 2400 a.C., há textos que descrevem templos em Uruk dedicados à deusa Ishtar, onde operava um tipo de bordel sagrado, mulheres que prestavam serviços sexuais associados a rituais religiosos, segundo registos sumérios.
Esses templos tinham diferentes classes: algumas mulheres atuavam só nas cerimónias, outras atendiam visitantes do templo, e outras inclusive podiam sair à rua para buscar clientes.
Não deixa de ser irónico a ligação religiosa primordial, quando hoje é altamente criticada pelas religiões.
Nos povos antigos de Canaã e Fenícia, sabia-se que havia prostituição masculina ligada a cultos religiosos, especialmente ao culto de deusas como Astarte ou Ashtart. Ou seja, a noção de prostituição genderizada (só mulheres) não é universal nem sempre foi dominante, como é hoje em dia.
Na narrativa bíblica, há também menções simbólicas: Rahab, em Jericó, era prostituta mas desempenha um papel crucial ao ajudar espiões; Judith e Tamar aparecem em passagens onde a prostituição e a sexualidade social são parte da história.
Uma descoberta fascinante que fiz ao pesquisar é que, até entre chimpanzés, foi observado um comportamento que se aproxima de prostituição: os machos que fornecem carne a fêmeas tendem a ter mais sucesso reprodutivo.
O estudo “Wild Chimpanzees Exchange Meat for Sex on a Long-Term Basis” mostra que fêmeas copulam com mais frequência com machos que lhes deram carne ao longo do tempo, controlando variáveis como status e associação dos pares.
Isto não prova que chimpanzés “façam prostituição humana”, mas, parece-me, reforça que comportamentos de troca de recursos por acasalamento não são exclusivos dos humanos e põe em perspetiva o que é realmente prostituição.
Hoje, fala-se cada vez mais de sex work (trabalho sexual) em vez de prostituição para abranger diversas modalidades: acompanhantes, cam girls, striptease, serviços telefónicos, etc.
Foi a ativista Carol Leigh quem criou o termo em 1979, para desestigmatizar e reconhecer o caráter laboral.
E há uma distinção essencial: prostituição implica troca direta de sexo por pagamento; mas sex work é mais amplo, nem todo trabalho sexual envolve contacto sexual direto. Pensem no Only Fans.
Alguns argumentam que o trabalho sexual pode dar autonomia e independência financeira, especialmente em sociedades onde as opções são limitadas.
Porém, em muitos casos (para não dizer a maior parte), as pessoas que entram na prostituição enfrentam desigualdades profundas à partida: pobreza, exclusão social, dependências, violência…
Ou seja, a “escolha” é frequentemente condicionada.
Desde o século XIX, a mulher prostituída tem sido retratada como “pecadora” ou “caída”, o que reforça estigmas: criminosa, imoral, portadora de doenças, etc.
Esse estigma sobrevive até hoje e molda políticas que empurram a profissão para a clandestinidade nalguns países.
Na modernidade, a prostituição assume diferentes enquadramentos legais.
Na Alemanha, Grécia ou Nova Zelândia, é legal e regulamentada. Na Suécia e em países que adotaram o chamado “modelo nórdico”, criminaliza-se a compra, não a venda de serviços sexuais. Em muitos outros, como a maior parte dos EUA, China ou Rússia, continua a ser totalmente ilegal.
A discussão sobre se o sex work deve ou não ser legal continua a gerar grandes debates (eu próprio não tenho uma opinião definitiva).
Isto acontece porque toca nas mais sensíveis fronteiras humanas: poder, consentimento, corpo, mercado.
O meu objetivo também não é dar uma resposta a isto.
Saíndo de um caráter mais objetivo desta newsletter, parece-me que quem fala da prostituição muitas vezes mistura argumentos morais, jurídicos, de segurança pública e de saúde pública. E às vezes esquece-se que por trás dos conceitos estão pessoas com histórias, dores e escolhas.
Quando vestimos o olhar humano e não apenas jurídico, percebemos que a prostituição revela muito sobre desigualdades de género, de oportunidades, de corpos que são mercadoria ou sujeitos.
Talvez reconhecer que não há respostas fáceis seja um passo importante.
Deixo-vos ainda um vídeo curto, que foi o primeiro que assisti quando decidi escrever sobre este tema.
Na tentativa de encontrar um debate sério entre pessoas pró e contra a legalização da prostituição, descobri este vídeo entre duas personagens AI que me deixou a rir e assustado ao mesmo tempo.
Caso já tenham deliberado sobre este assunto ou tenham algum facto curioso, sintam-se à vontade para partilhá-lo comigo 😉
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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