122# Nenhum movimento acontece por acaso

Boa noite!

Quando comecei a gostar de ler, com cerca de 18 anos, sem dúvida que o tema sobre o qual mais li naquela altura foi linguagem corporal.

Lembro-me de ficar deslumbrado quando percebi que a forma como mexemos o nosso corpo tem muito mais significado do que eu alguma vez poderia ter pensado.

Algo que, também, rapidamente percebi foi que nenhum movimento do nosso corpo acontece por acaso. Nenhum!

Até aquela comichão no cotovelo ou no pescoço acontece por alguma razão específica (mesmo que seja algo irrelevante, como uma aragem que passou ou um inseto que lá pousou).

Outra coisa que me recordo de me deixar incrédulo foram as percentagens dos diversos tipos de comunicação – spoiler alert: a grande maior parte da comunicação é não verbal.

Segundo um artigo publicado pela Universidade do Texas, 55% da comunicação é não verbal, 38% prende-se no tom de voz e apenas 7% se atribui às palavras!

A meu ver isto explica a dificuldade que temos em criar relações hoje em dia. 

Damos uma importância altamente exagerada às palavras que saem da boca das pessoas, mas não aos comportamentos manifestados enquanto as mesmas são proferidas, ou até à entoação com que são ditas.

Vamos então aprofundar um pouco…

Quando falamos em linguagem corporal, estamos a falar do conjunto de gestos, posturas, expressões faciais e até micro-movimentos que revelam o que pensamos ou sentimos — quase sempre sem darmos por isso. 

O rosto humano, por exemplo, consegue exprimir mais de sete mil variações de expressão (!), e algumas delas são universais. O Paul Ekman, um psicólogo pioneiro no estudo das emoções, demonstrou que expressões de alegria, tristeza, raiva, surpresa, medo e nojo são reconhecidas em qualquer cultura.

Isto significa que quando sentimos alguma dessas emoções, fazemos involuntariamente as mesmas micro-expressões, independentemente da cultura.

Como já devem ter percebido, a maior parte da linguagem corporal é inconsciente. Pequenos gestos involuntários, como tocar no pescoço, mexer no cabelo ou cruzar os braços — podem sinalizar sentimentos, como desconforto, insegurança ou simplesmente a necessidade de proteção. 

É por isso que, em contextos como entrevistas de emprego ou negociações, observar o corpo do outro pode ser tão ou mais revelador quanto ouvir as suas palavras.

Um detalhe, delicioso mas que poucas pessoas dão atenção, é que o corpo tende a apontar para aquilo que realmente nos interessa. 

Numa conversa, os pés virados para a porta podem indicar vontade de sair, enquanto pés direcionados para outra pessoa revelam atenção ou atração. Isto porque os pés são a parte mais difícil de controlar conscientemente, por serem a mais distante do cérebro.

A distância entre pessoas também fala muito. O antropólogo Edward T. Hall estudou o conceito de “proxémica”, nos anos 60, e identificou zonas de conforto distintas: a distância íntima, pessoal, social e pública. 

Invadir estas fronteiras sem perceber pode gerar desconforto imediato, mesmo que a outra pessoa não diga nada. E, isto sim, muda brutalmente consoante a cultura. Os latinos, por exemplo, têm uma proximidade e um conforto no toque, que pode deixar qualquer nórdico mal-disposto.

A voz, muitas vezes esquecida na comunicação não verbal, é também corpo. A entoação, a velocidade e até as pausas transmitem intenções. 

Winston Churchill, por exemplo, preparava cuidadosamente não só o conteúdo dos discursos, mas também os silêncios, porque sabia que a pausa estratégica tinha tanto como a palavra.

Isto porque o silêncio revela, por exemplo, coragem e tranquilidade (as ‘bengalas’ que a maior parte das pessoas usa, como ahmm e uhmm, são preenchedores de silêncio e revelam precisamente o contrário).

É ainda curioso que, em contextos de mentira, o corpo tende a contradizer a boca. Um exemplo clássico: alguém afirma estar calmo, mas as mãos tremem ligeiramente ou a respiração acelera.

Os bons interrogadores, como Joe Navarro do FBI (especialista em linguagem corporal), usam estes sinais para detetar incoerências, não confiando (claro!) apenas nas palavras.

Por fim, algo que também aprendi ao longo da minha jornada é que não é muito eficaz julgar aquilo que uma pessoa realmente sente através da análise de atos isolados (embora por vezes sejam suficientemente reveladores).

Ou seja, se uma pessoa está, por exemplo, desconfortável, isso refletir-se-á, na maior parte das vezes, em várias ações e não apenas em uma.

Moral da história: recomendo que passem a dar menos importância às palavras e mais importância aos movimentos, se o vosso objetivo é perceber exatamente os sentimentos, emoções e intenções de uma pessoa.

Para esta newsletter em específico, não vi nenhum vídeo no youtube (embora haja um número infindável deles), mas deixo-vos abaixo todos os livros que já li sobre o tema linguagem corporal (e, sim, o penúltimo é um pouco controverso):

Depois de 120 newsletters escritas e muito trabalho árduo de pesquisa, a partir de hoje, podem ajudar este projeto a crescer e a tornar-se mais sustentável.

Esta newsletter continuará a ser gratuita porque tem como missão acrescentar conhecimento e cultura que, talvez, de outra forma não vos chegaria. E é isso que me move.

Eu acredito piamente que os bons projetos são sustentáveis pelas pessoas que deles retiram valor, se as coisas forem bem feitas. Por isso, se encontras valor na missão deste projeto e gostavas de ajudar, podes agora fazer uma doação aqui.

Muito obrigado e por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

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