114# Palavras únicas não-traduzíveis

Boa noite!

Como sabem, há palavras que não cabem noutras línguas. Têm raízes culturais tão profundas que não existe tradução direta, apenas aproximações. São conceitos únicos, moldados por formas de estar e sentir o mundo. É o caso da “saudade”, que todos conhecemos.

Hoje decidi investigar, e juntei algumas que já conhecia a outras que entretanto descobri, e trouxe-vos algumas palavras com significados únicos e não-traduzíveis que acho interessantes…

Fernweh (alemão)
Esta não conhecia. Significa “desejo profundo de ir para longe”, quase o oposto de saudade ou nostalgia. É uma ânsia de explorar o desconhecido, sítios onde nunca fomos, uma inquietação por horizontes distantes.
Exemplo: “Com o inverno a chegar, senti um Fernweh irresistível por uma ilha tropical.”
É uma palavra comum em literatura de viagens e evoca uma dor doce por algo que ainda não se conhece, mas se deseja intensamente.

Fika (sueco)
Esta foi-me ensinada por amigos suecos que fiz em viagem. Mais do que uma pausa para café, fika é um ritual social. Representa o tempo reservado para relaxar, conversar e saborear algo, geralmente café juntamente com algo doce, como um bolo ou sobremesa.
Exemplo: “A cada tarde, os colegas juntavam-se para a habitual fika no escritório.”
É um símbolo forte da cultura sueca de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Em empresas suecas, fazer fika não é visto como distração, mas como parte da produtividade.

Kaizen (japonês)
Esta vem diretamente de um livro de gestão que li e é o lema desta newsletter! Traduz-se literalmente por “melhoria contínua”. É uma filosofia de progresso passo a passo, usada tanto no desenvolvimento pessoal como na gestão empresarial.
Exemplo: “Implementámos o princípio do Kaizen para melhorar a organização da equipa.”
Foi popularizado pela Toyota e está na base de muitos modelos de eficiência e inovação no mundo. Para os japoneses (e na realidade!), pequenos ajustes diários geram grandes mudanças no futuro.

Lagom (sueco)
Esta foi-me ensinada por uma rapariga sueca que conheci há uns anos e, na altura, ela disse-me que era a palavra perfeita para descrever a cultura do seu país. Quer dizer “nem demais, nem de menos — na medida certa”. É uma ideia de moderação e equilíbrio, uma espécie do nosso ‘quanto baste’, valorizada na vida quotidiana, nos hábitos e até na decoração.
Exemplo: “A sua casa era simples, mas com tudo no lugar: muito lagom.”
É considerado o segredo sueco para o bem-estar. Lagom é um antídoto contra o excesso e o desperdício.

Tingo (rapanui – Ilha da Páscoa)
Esta não conhecia, mas achei divertida! Significa “pegar emprestado objetos de um amigo, um a um, até não restar nada.”
Exemplo: “Se continuares a pedir-me livros como tingo, vou ficar sem estante!”
Embora pareça uma brincadeira, reflete uma dinâmica de partilha e confiança nas pequenas comunidades da Ilha da Páscoa. A palavra ganhou notoriedade em livros sobre vocabulário intraduzível.

Ubuntu (zulu/xhosa, África Austral)
Esta também não conhecia, mas achei profunda. Daquelas que nos explicam porque temos muito a aprender com o sentido de comunidade africano. Refere-se à humanidade partilhada: “eu sou porque tu és”. Exprime a ideia de que o bem-estar de um está ligado ao bem-estar de todos.
Exemplo: “Naquela comunidade sentia-se o espírito de ubuntu: todos cuidavam uns dos outros.”
Foi popularizada por figuras como Desmond Tutu e Nelson Mandela e tem servido de base para filosofias de reconciliação e ética social.

Wabi-sabi (japonês)
Não, não é wasabi! É a beleza do imperfeito, do transitório, do incompleto. Encontra valor na assimetria, no envelhecimento e nas marcas do tempo.
Exemplo: “O vaso rachado, com musgo a crescer, era puro wabi-sabi.”
Esta estética japonesa influencia a cerâmica, o design, o pensamento zen e a vida quotidiana. Lembra-nos que há beleza na impermanência e dignidade nas imperfeições.

É muito interessante a forma como as culturas e os povos inventam palavras para descrever emoções e paradigmas. Estas palavras não são apenas vocabulário: são janelas para outras formas de ver e sentir o mundo. 

São provas de que há emoções, ideias e hábitos tão específicos que só ganham vida plena na sua língua de origem. E talvez isso nos ajude a compreender que, por mais diferentes que sejamos, partilhamos a mesma curiosidade pelas nuances da experiência humana.

Se souberem mais palavras deste género que achem interessantes, por favor não hesitem em partilhar. Acho muito cool!

Por hoje é tudo.

Até quarta,

Francisco

Sua assinatura não pôde ser validada.
Obrigado! Certifica-te que recebes um email de boas-vindas nos próximos 5 minutos. Caso não o encontres, verifica também no spam. Se não tiver chegado, por favor contacta-me para fnascimento@aprendealgoantesdedormir.pt Para garantires que recebes todas as newsletters, podes marcar o email de boas-vindas como importante na tua caixa de correio. ~A partir de agora, todas as semanas vais aprender algo antes de dormir!

Torna-te naquela pessoa que tem sempre algo interessante para partilhar.

In

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *