Olá!
Hoje decidi escrever-vos sobre uma figura incontornável do nosso país.
Ele que ficou famoso pela sua escrita, mas cuja vida não se resumiu apenas a esse tema.
José Saramago não foi apenas um escritor genial — foi um dos grandes agitadores da consciência coletiva contemporânea.
Nascido em 1922, numa família humilde da Azinhaga, no Ribatejo, a sua infância foi marcada pela pobreza e pela ida precoce para Lisboa.
Começou por ser serralheiro mecânico, sem estudos universitários, mas isso não o impediu de se tornar um dos mais traduzidos e estudados autores portugueses de sempre.
O reconhecimento internacional chegou tarde, mas com estrondo. Quando publicou Memorial do Convento em 1982, aos 60 anos, Saramago já estava pronto para mudar o panorama literário.
O estilo era inconfundível: frases longas, diálogos sem marcas gráficas convencionais, uma pontuação orgânica e um narrador que comenta, provoca e guia o leitor com ironia. Mais do que escrever histórias, Saramago criava experiências mentais.
A polémica não tardou. Em 1991, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Saramago viu o seu livro ser retirado da candidatura portuguesa ao Prémio Literário Europeu, por ordem do Governo, que considerou a obra ofensiva para os católicos. O escritor respondeu com a decisão de sair do país e instalar-se em Lanzarote, nas Canárias.
Sete anos depois, em 1998, chegou o Prémio Nobel da Literatura. Mas nem aqui a polémica lhe deu descanso: o próprio Vaticano manifestou desconforto com a distinção, insinuando que se tratava de uma provocação. Para muitos conservadores, a escolha de um comunista ateu e crítico feroz da Igreja Católica era difícil de engolir .
A obra de Saramago nunca foi neutra. Abordava temas como o poder, a opressão, o livre-arbítrio, a morte, a cegueira moral e social. No Ensaio sobre a Cegueira, um surto inexplicável de cegueira branca revela a fragilidade dos valores humanos. Em As Intermitências da Morte, Saramago imagina um país onde ninguém morre — e o caos ético que daí resulta. Os seus livros são, acima de tudo, metáforas profundas da condição humana.
Fiel ao Partido Comunista Português, que integrou nos anos 1960, manteve sempre uma postura política ativa. Mesmo depois do Nobel, nunca suavizou os seus posicionamentos, o que lhe valeu admiração, mas também críticas ferozes. A sua visão do mundo era a de alguém que se recusava a aceitar injustiças como inevitáveis.
Saramago morreu em 2010, mas deixou uma herança que vai muito além dos livros. A Fundação José Saramago, instalada na Casa dos Bicos, em Lisboa, é hoje um centro de reflexão cultural, política e literária. Ali se mantém viva a memória de um homem que acreditava no poder transformador da palavra escrita.
Mais do que um escritor, Saramago foi um incómodo necessário. Leu o mundo com os olhos semicerrados, desconfiando daquilo que parecia evidente. E, por isso mesmo, continua a ser imprescindível a sua leitura.
Se tiverem interesse, deixo-vos ainda um documentário (em inglês, mas o melhor que encontrei) sobre a vida de Saramago e uma entrevista muito interessante que ele deu.
Por hoje é tudo.
Até quarta,
Francisco

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